quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Bibliotecário e Cientista da Informação: sinônimos.

Para começar a Ciência da Informação é uma profissão liberal com (licenciatura, mestrado e doutorado), que trata da informação e a torna acessível aos que precisam de conhecimento e pesquisam para obter.
O cientista da informação é mais tradicionalmente conhecido como (bibliotecário), e é uma profissão bem antiga. Estima-se que tenha se iniciado nos promórdios com as práticas estabelecidas pelos monges copistas. Em seu caráter de evolução e diciplina no estudo da informação, prima em fomentar a disponibilização ao conhecimento, e desenvolver técnicas e serviço para que ela, a informação, possa estar a alcance de todos seja de que maneira em suporte e suplemento de informação (impresso, digital, sonoro, literário etc). O cientista da informação (bibliotecário), tem vários papéis na sua abordagem de profissional qualificado depedendo de cada setor em que atua por exemplo, embora teremos vários neste resumo em etapas diciplinar específica; divididas em várias partes temos: representação descritiva, serviço de referência, linguagem documentária, classificação em cânones com eficiência em assuntos ambiguos etc... Infelizmente, o disseminador de informação é conhecido popularmente como um limpador de livros e espanador de pó. É importante que esse esteriótipo sobre o cientista da informação (bibliotecário) seja quebrado, então vamos esclarecer mais... Abordando mais sobre as atribuições: do cientista da informação(bibliotecário), que é um administrador de dados, que processa e dissemina informação, cataloga, quarda e classifica as informações. Ele orienta aquele que busca a informação. Ele na sua abordagem específica, analisa sintetiza, organiza livros, revistas, documentos, fotos, filmes e videos. Compete a sua atribuição, implementar uma boa gestão no sistema de informação na área onde trabalha, além de fazer uma boa preservação dos suportes (mídia)para que possa resistir ao tempo e ao uso, para o acesso de todos que captam a informação. O profissional formado e qualificado da "informação" pode prestar serviço de assessoria e consultoria da área onde atua. É importante que na especificação em uma das área mais conhecidas onde atuam, que são as bibliotecas, existem bibliotecas escolares; que precisa do profissional e orientação pedagógica em cada classe estudantil, exemplo: (primário,fundamental e superior), e existem as bibliotecas públicas; que é para todas as áreas, generos e usuários. Gerenciam unidades como bibliotecas, centro de documentação de informação e correlatos, rede de sistema de informação, rede de sistema de documentação, orientam na técnica de desenvolvimento de recursos informacionais, além de desenvolver classificativas com o objetivo facilitar acesso a geração do conhecimento. Também realizam eventos na difusão cultural e educacional. Mais um outro nincho de atuagem do profissional da informação, emboras algumas conhecidas outras não: bibliógrafo, biblioteconomista, cientista da informação, gestão da informação,especialista da informação,gerencia da informação,gestão da informação,além de ter função de educador em bibliotecas escolares, tem como objetivo trabalhar o acesso a informação. Lembre-se, o que faz a diferença é o perfil de cada profissional. No ambiente de trabalho: são diversificados e sistematizados, tem: mercado informacional tradicional, mercado informacional existente não ocupado, e o mercado tendência. O mercado informacional tradicional; é bastante conhecido e são os únicos mais lembrados por leigos no assunto, que são as bibliotecas. Muitos sistemas de bibliotecas públicas no país é distorcido, porque sua atuação está mais para bibliotecas escolares do que para pública. Esta distorção acontece devido a falta de apoio à educação e à cultura em bibliotecas. Então, é muito importante esclarecer sobre essa classe profissional, e também informar sobre o objetivo de haver formação e boa qualificação sobre o assunto, há leis, normas, conselho de classe, e o resultado de não ter o exercício da função bem como o profissional formado e bem atualizado.

Entrevista com bibliotecária

Entrevista com a bibliotecária Sônia Maria

quinta-feira, 18/03/2010


Bibliotecário é um profissional liberal (bacharel, mestre ou doutor) que trata a informação e a torna acessível ao usuário final. Ele trabalha em bibliotecas, centros de documentação e pode gerir redes e sistemas de informação além de gerir recursos informacionais e trabalhar com tecnologia de ponta. Por essas atribuições o bibliotecário é segundo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), um Profissional da Informação, como também o são arquivistas e museólogos.
Um papel pouco percebido por quem não conhece a profissão é o de desenvolver coleções, que são mais do que um conjunto de documentos, mas uma seleção cuidadosa que segue parâmetros e é reunida com uma finalidade. São funções dos bibliotecários catalogar e guardar as informações, orientar sua busca e seleção. Cabe-lhe analisar, sintetizar e organizar livros, revistas, documentos, fotos, filmes e vídeos.
No município de Lauro de Freitas que tem uma população de mais de l60 mil habitantes, existe uma Biblioteca Pública com 7 funcionários funcionando no horário administrativo em frente a casa do Trabalhador, próximo ao Ginásio de Esporte e Restaurante Popular. No dia 12 de março comemora-se o dia do Bibliotecário e o Café com Notícias foi prestar uma homenagem a esse profissional em seu local de trabalho e na oportunidade realizou uma entrevista com SÔNIA MARIA GOMES DE LIMA.
 CCN – Fale um pouco da sua origem?
Sônia Maria – meus pais são mineiro e se conheceram e casaram em São Paulo, tenho irmãos. Passei a infância no bairro do Itaim Bibi, hoje conhecido como o bairro do Jardim Paulista. Na época meu pai trabalhava como Mecânico na Companhia Municipal de Transportes Coletivos – CMTC. Um dos maiores sonhos dos meus pais era formar os filhos.
 CCN – O que lhe motivou a fazer Biblioteconomia, e quais os cursos de especialização que você concluiu?
Sonia Maria – A idéia de fazer o curso de Biblioteconomia, surgiu por influencia de uma bibliotecária que trabalhava na Biblioteca Anne Frank em São Paulo e que por sinal era um local onde eu gostava muito de freqüentar. Conclui minha graduação em Biblioteconomia, em 1979 pela Faculdade de Biblioteconomia, Fundação de Sociologia e Política de São Paulo, fiz também Pós-graduada em Tratamento da Informação Científica e Tecnologia em 1997, na I.T.A. – São José dos Campos – SP em 1997 e na UNIFACS – Salvador-BA, fiz a Pós Graduação em Especialização no Ensino da Cultura Afro-Brasileira, concluindo em 2008.
 CCN – Como foi sua vida profissional?
Sônia Maria: Comecei a trabalhar aos 20, meu primeiro serviço foi como bancária, com o curso de graduação em Biblioteconomia, entrei na Prefeitura Municipal de São Paulo especificamente na Secretaria Municipal de Cultura, onde passei 25 anos. Fui Bibliotecária; na Biblioteca Mário de Andrade, do Centro Cultural São Paulo na Vergueiro, no Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo, na Gibiteca Municipal e fui Coordenadora no Acervo da Memória do Viver Afro-Brasileiro/Centro Cultural Jabaquara. Gerente de Atendimento da Faculdade de Belas Artes além de Coordenar Serviços de Atendimento ao Público na ONG Fé é Alegria em Projetos de Mini-bibliotecas Comunitárias, além de várias outras atividades.
 CCN – E a Bahia, como entrou na sua vida?
Sônia Maria: Depois da morte dos meus pais e irmãos e após ter me aposentado, decidi sair de São Paulo, e entre três capitais, Rio de Janeiro, Recife e Bahia, optei por fixar residência aqui. Por ter parentes morando em Lauro de Freitas escolhi esse município para morar. Não consegui ficar fora da minha área de trabalho, resolvi ser Voluntária da Biblioteca do Projeto Axé, por 1 ano. Depois, em Lauro de Freitas, assumi a Coordenação Técnica da Biblioteca Municipal da cidade, através da Secretaria Municipal de Educação..
 CCN – Qual o papel da Biblioteca Municipal para a comunidade?
Sônia Maria: O papel da Biblioteca Municipal é reunir, preservar e democratizar o patrimônio cultural de Lauro de Freitas e promover o habito pela leitura incentivando a pesquisa, o que certamente, nos dias atuais com o avanço da tecnologia torna-se imprescindível, a modernização das bibliotecas públicas. A exemplo de Lauro de Freitas, que recebeu da Fundação Biblioteca Nacional equipamentos destinados à montagem de um Infocentro dentro do Programa de Modernização do Ministério da Cultura, no qual 11 computadores serão disponibilizados para ampliação e modernização dos serviços da Biblioteca Municipal, a implantação do Infocentro passou a ser um sonho que será realizado, muito em breve. O Infocentro  tem o intuito de promover a educação e inclusão digital de crianças e jovens que frequentam a Biblioteca Municipal de Lauro de Freitas. Damos suporte as bibliotecas comunitárias como a existente em Areia Branca e em andamento na instalação de uma nova Biblioteca Comunitária no Jardim Talismã.
 CCN – As empresas e a comunidade contribuem com doações de livros?
 Sônia Maria – Sim. Recebemos doações da comunidade, de acordo com critérios previamente estabelecidos.
CCN – Foi apresentado um projeto para implantação do primeiro acervo para Câmara de Vereadores do nosso Município através do Professor Gildásio Freitas, mas não houve um claro entendimento da importância de se implantar um Memorial na Câmara. Como também não temos um arquivo público qual a importância de um acervo para cidade?
Sônia Maria: Um Arquivo Público em nosso município seria muito importante, pois iria propiciar a identificação, preservação, pesquisa e difusão do Patrimônio Natural e Cultural de Lauro de Freitas. Os Arquivos Públicos são locais de guarda, preservação, organização, acesso e difusão de acervos documentais, seja de natureza textual, cartográfica, bibliográfica, sonora, filmográfica, iconográfica, micrográfica ou digital.
O município de Lauro de Freitas, cuja colonização iniciada em 1578, há aproximadamente 432 anos, somente em 1962 alcançou a emancipação e 1963 realizou-se a primeira Sessão Ordinária da Câmara de Vereadores do Município. São aproximadamente 47 anos de vida administrativa autônoma, ou seja, mais de meio século de inúmeros documentos acumulados.
CCN – Fora da Biblioteca Municipal que outras Bibliotecas existem no Município.
Sônia Maria – As das Faculdades existentes, como Unime, Apoio, Unibahia e outras. São bibliotecas universitárias.
CCN - Foram doados 11 computadores para implantação de um Infocentro na Biblioteca Municipal? Depende do que para o seu funcionamento?
Sônia Maria: Estamos na fase de instalação elétrica.
CCN – Se você ganhasse na loteria como realizaria os seus sonhos?
Sônia Maria: Construindo uma grande Bibliotecas Pública no município.
CCN – Estamos à disposição para os seus comentários?
Sônia Maria - Estou feliz. Muito feliz. Esta é a primeira vez que recebo visita e uma homenagem no dia 12 de março – No mês do Bibliotecário, de um veículo de comunicação em Lauro de Freitas. Aproveito a oportunidade para convidar a comunidade para conhecer nossa Biblioteca Pública. O horário de funcionamento para o público é de segunda a sexta, das 8h00 às 17h30.

Biblioteca não é depósito de livros

Edmir Perrotti: "Biblioteca não é depósito de livros"

Idealizador de redes de leitura em escolas diz que é função do educador ajudar os estudantes a processar as informações do acervo

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Edmir Perrotti. Foto: Gustavo Lourenção
Edmir Perrotti
Desafios como a criação do hábito da leitura entre crianças e adolescentes, as novidades tecnológicas, a ampliação do acesso ao ensino e a sofisticação do mercado editorial levaram o professor Edmir Perrotti a uma nova concepção de biblioteca escolar e de seu papel pedagógico.
Com formação em Biblioteconomia - área que combinou com seu interesse em Educação -, ele é docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, conselheiro do Ministério da Educação para a política de formação de leitores e autor de livros infantis.
Perrotti orientou a implantação de redes de bibliotecas inovadoras nas escolas municipais de São Bernardo do Campo, Diadema e Jaguariúna, no estado de São Paulo. Nessas estações de conhecimento, como ele prefere chamá-las, a aprendizagem é estimulada pela presença de suportes tecnológicos, como o computador e a televisão.
Em um ambiente que convida as crianças a descobrir e aprofundar o prazer da leitura, os livros convivem com outras linguagens, como a do teatro. "Assim trabalha-se o contato com as informações e também o processamento delas", diz. Ex-professor da Universidade de Bordeaux, na França, e de escolas de Ensino Fundamental no Brasil, além de editor e crítico literário, Perrotti concedeu a seguinte entrevista a NOVA ESCOLA.

O que deve orientar a constituição de uma biblioteca escolar?
Edimir Perrotti Ela não pode restringir-se a um papel meramente didático-pedagógico, ou seja, o de dar apoio para o programa dos professores. Há um eixo educativo que a biblioteca tem de seguir, mas sua configuração deve extrapolar esse limite, porque o eixo cultural é igualmente essencial. Isso significa trazer autores para conversar, discutir livros, formar círculos de leitores, reunir grupos de crianças interessadas num personagem, num autor ou num tema. A biblioteca funciona como uma ponte entre o ambiente escolar e o mundo externo.

De que modo se realiza essa abertura para fora da escola?
Perrotti O responsável pela biblioteca tem o papel de articular programas com a biblioteca pública e fazer contato com a livraria mais próxima, além de estar atento à programação cultural da cidade. Há uma série de estratégias possíveis para inserir a criança num contexto letrado. A biblioteca precisa ter outra finalidade que não seja simplesmente a de um depósito de onde se retiram livros que depois são devolvidos. Nós não trabalhamos mais com a idéia de unidades isoladas. O ideal é formar redes, um conjunto de espaços que eu chamo de estações de conhecimento, cujo objetivo é a apropriação do saber pelas crianças.

Qual é a necessidade das redes?
Perrotti Com o atual excesso de informações e a multiplicação de suportes, nenhuma biblioteca dá conta de todas as áreas em profundidade, até porque não haveria recursos para isso. O trabalho tem de ser compartilhado com outras unidades da rede, por meio de mecanismos de busca informatizados. Por exemplo: a escola guarda um pequeno acervo inicial sobre arte, mas, se o interesse for por um conhecimento aprofundado, recorre-se a uma biblioteca especializada na área. Hoje não há mais condições de manter o antigo ideal de bibliotecas enciclopédicas, que abarcavam todas as áreas de conhecimento.

Quem deve ser o responsável pela biblioteca?
Perrotti
Processar as informações e criar nexos entre elas é um ato educativo. O responsável, portanto, é um educador para a informação, que nós chamamos de infoeducador, um professor com especialização em processos documentais. Uma rede de bibliotecas tem uma plataforma de apoio técnico-especializado, que é a área do bibliotecário, um especialista em planejamento e organização da informação. Junto com ele trabalham os educadores, que são especialistas em processos de mediação de informação. Dar acesso ao acervo não basta para que o aluno saiba selecionar e processar informações e estabelecer vínculos entre elas.

De que modo se estimula a autonomia numa biblioteca?
Perrotti
É preciso desenvolver programas para construir competências informacionais. Isso inclui desde ensinar a folhear um livro — para crianças bem pequenas — até manejar um computador. Antigamente imperava a idéia de que os adultos é que deveriam mexer nas máquinas e pegar os livros na estante. Hoje deve-se formar pessoas que tenham uma atitude desenvolvida, não só de curiosidade intelectual mas de domínio dos recursos de informação. Essa é uma questão essencial da nossa época.

Por que a escola tem falhado em ensinar os alunos a processar informações?
Perrotti
Porque se acredita que basta escolarizar as crianças para formar leitores. De fato, a escola tem o papel de construir competências fundamentais para a leitura, mas isso não quer dizer formar atitude leitora. Hoje, o que distingue o leitor das elites do leitor das massas é que o primeiro tem um circuito de trocas. Ele participa do comércio simbólico da escrita, da produção à recepção: sabe o que é publicado, informa-se sobre os autores, encontra outros leitores etc. Já a criança da escola pública muitas vezes não tem livros em casa e só lê o que o professor pede. Ela não tem com quem comentar. Está sozinha nesse comércio das trocas simbólicas.

Qual é o mínimo necessário para o funcionamento de uma biblioteca escolar?
Perrotti
Estou convencido de que é a pessoa que trabalha ali, mediando relações entre a criança, a informação e o espaço. Não precisa ser alguém superespecializado, mas que compreenda a função da escrita e da imagem e que saiba qual é a importância daquilo na vida das pessoas. Assim, a compra de livros seguirá um critério de escolha consciente. É claro que é bom construir um ambiente agradável e funcional, mas não é indispensável, porque a leitura não depende das instalações da biblioteca; ela se dá em qualquer lugar.

Quem deve escolher o acervo?
Perrotti Nós temos trabalhado um modelo em que a escolha é feita por todos os que participam dos processos de aprendizagem: professores, coordenadores, diretores e alunos. Formulários são colocados à disposição para que sejam feitas sugestões de compra. O infoeducador não só coleta esses dados como divulga, por meio dos quadros de aviso, as informações sobre lançamentos que saem na imprensa e na internet. Depois, ele vai analisar os pedidos, separá-los em categorias — livros importantes para os projetos em andamento, leituras de informação geral ou complementares etc. — e, com base nessas listas, a escolha é feita de acordo com os recursos disponíveis.

Como comprometer o aluno com a organização e a manutenção da biblioteca?
Perrotti
Ele participa da escolha do acervo e também pode estar pessoalmente representado nele, por meio de livros que ele escreve e de documentos de sua passagem pela escola. Uma parte do acervo vem da indústria cultural e outra é produzida internamente, com documentos e relatos referentes à história da instituição. Formar um repertório de dados locais cria relações com as informações universais.

Descreva a biblioteca escolar ideal.
Perrotti É aquela que possui todo tipo de recurso informacional, do papel ao equipamento eletrônico. O espaço é construído especialmente para sua finalidade e de acordo com quem vai usar. Se o público majoritário é infantil, a disposição dos móveis e do acervo deve permitir que a criança se mova com autonomia. É preciso ser um local acolhedor, mas que empurre rumo à aventura, porque conhecer é sempre se deslocar.

Por que se diz que os jovens não gostam de ler?
Perrotti
Os interesses mudam na passagem da infância para a adolescência e a leitura que era feita antes já não interessa tanto, mesmo porque cresce a concorrência de outras mídias. Essa é uma transição crítica e ainda não foram definidas ações específicas para promover a leitura nessa faixa etária. Os adolescentes identificam o livro com as tarefas da escola, que reforça essa percepção porque raramente sai da abordagem instrumental da leitura. E no âmbito social, entre os amigos, a leitura não está presente. Mesmo assim, essa fase é a das grandes paixões. Portanto, há um espaço enorme para promover a leitura entre os jovens.

É possível formar leitores por meio de políticas públicas?
Perrotti
O problema é saber que caráter elas têm. Eu não concordo com estratégias que pretendam ensinar os alunos a gostar de ler. A função do poder público é criar ambientes que dêem condições de ler, tentar despertar as crianças para as potencialidades da escrita, prepará-las para as competências leitoras — enfim, providenciar para que seja constituída a trama que sustenta o ato de ler. Mas gostar de ler é questão de foro íntimo, não de políticas públicas.

A escola deve obrigar um aluno a ler livros e freqüentar bibliotecas mesmo que ele não goste?
Perrotti
Não se pode deixar de perguntar por que esse aluno não gosta de ler. Ele teve uma relação negativa com a situação de aprendizagem? Ninguém lê em casa? Tem dificuldades de visão? Não domina o código? Não tem circuitos culturais a sua volta? Tudo isso pode e deve ser trabalhado. Agora, se ele teve apoio para experimentar a prática da leitura e prefere fazer outras coisas, não adianta forçar. É claro que não estou falando da leitura funcional, indispensável para a vida diária. Nesse caso, é obrigatório negociar com a criança o "não querer ler".

É melhor ler literatura de má qualidade do que não ler nada?
Perrotti
A pergunta já supõe que de fato existe uma literatura de má qualidade. Há leitores que são capazes de voar longe com um suposto mau livro, assim como há muitos trabalhos escolares que se utilizam de grandes textos, mas sufocam o interesse de aprender. Por outro lado, não é possível deixar o gosto do leitor imperar sozinho. É fundamental operar mediações entre as crianças e uma literatura que tenha condições de produzir significações importantes.

O uso do livro em sala de aula está em decadência?
Perrotti
Ele está aquém do que gostaríamos que fosse e também do que seria necessário. Mesmo assim, o livro está entrando nas escolas numa medida que não entrava, nem que seja por meio das distribuições feitas pelo Ministério da Educação e as secretarias estaduais e municipais. Há 50 anos nem sequer se sonhava com isso no Brasil. O problema maior é o de mau uso desses livros, com estratégias impositivas de leitura. Muitas vezes falta penetrar no avesso dos textos com as crianças e realmente mergulhar numa viagem de conhecimento, de imaginação.

Até que ponto as bibliotecas levam ao hábito da leitura?
Perrotti Eu participei de uma pesquisa feita com as crianças usuárias das redes de biblioteca que ajudei a implantar no estado de São Paulo. Queríamos saber se elas estão incorporando a leitura a sua prática de vida e não apenas como lição de casa. Qual é a constatação? Houve um grande avanço e as crianças se mostram muito mais familiarizadas com os livros, mas infelizmente ainda não usam as novas competências para trocas culturais. Por exemplo: não têm o hábito de comprar e emprestar livros. A prática escolar não se transferiu para a prática cultural.

Há perspectiva de mudança para essa situação?
Perrotti Eu vejo uma tendência de funcionalização. Os meios eletrônicos trouxeram, aparentemente, uma presença maior da escrita, mas o uso que se faz dela é cada vez mais abreviado. Vai-se transformando a língua no elemento mínimo para a transmissão da mensagem. Nós estamos a anos-luz de formar pessoas que, ao cabo do período de escolaridade, vão se relacionar com a escrita como uma ferramenta de conhecimento e de experiências estéticas, numa dimensão não pragmática. Restringir as ferramentas de linguagem a sua função utilitária é retirar de nós mesmos aquilo que nos humaniza — a capacidade de dizer de uma forma articulada. As novas bibliotecas têm de enfrentar essa questão.

Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/biblioteca-nao-deposito-livros-423601.shtml

Dica de Curta!!!

A Vingança da Bibliotecária


Gênero: Experimental
Diretor: Santiago Dellape
Elenco: Catarina Accioly, Dijair Diniz, Galileu HC Fontes, Mallú Moraes, Maria José Brun
Ano: 2005
Duração: 5 min
Local de Produção: DF Jamais perturbe o silêncio de uma biblioteca, ou despertarás a fúria da bibliotecária decrépita. Filmofagia de signos do imaginário terrorífico universal.


Fonte: http://meuvizinho.com.br/cinemaonline/detalhes.php?id_curta=18#

Cientistas da Informação, os bibliotecários...


Encarregados de cuidar e de organizar informações, os bibliotecários têm atuação ampla que vai além do trabalho com livros .

De origem grega, a raiz do nome biblioteconomia, “biblos”, significa livros. Pensar no profissional da área, o bibliotecário, normalmente vem à mente uma pessoa que, na biblioteca, é o responsável por organizar o acervo. Segundo a integrante do Conselho Federal de Biblioteconomia, Sandra Cabral, a origem da palavra pode restringir, para que não conhece, a atuação desses profissionais.

Os bibliotecários trabalham na seleção de conteúdo, vocabulário controlado e indexação de conteúdos, destaca. “É possível atuar em jornais, editoras, como arquitetos de informação na Internet, em hospitais, com a bibliotecoterapia, usando a leitura como tratamento”, diz.

Bibliotecária há 34 anos, Sandra afirma que, apesar de não serem profissionais valorizados no País, a atuação do bibliotecário é solicitada por empresas de variados setores, sendo uma atividade multidisciplinar. “Em todo o mundo, 20% das informações estão estruturadas, ou seja, arrumadas. Mas 80% não têm estruturas e estão dando sopa por aí”, afirma Sandra.

Com a Lei 12.244 de 2010, que obriga que as instituições públicas e privadas de ensino tenham bibliotecas e, pelo menos, um bibliotecário, em dez anos haverá uma necessidade de 178 mil profissionais, destaca Sandra. Daqui para lá, segundo ela, 30% dos profissionais de hoje devem estar aposentados.

A dica dela para quem está entrando no mercado é investir nos conhecimentos em informática, nas novas tecnologias e redes sociais. É preciso ter um bom conhecimento em inglês e procurar estar atualizado diariamente, com leitura de jornais e revistas.

Novo mercado

Formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) há 29 anos, Efigênia Fontenele é bibliotecária no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Desde que ela começou a atuar na área, as exigências no mercado foram mudando e a fizeram buscar dois cursos de especialização.

Hoje, a participação nas inovações da empresa são constantes. “Dentre os projetos, temos o de desenvolvimento industrial. Nele, existem várias etapas como o de busca de anterioridade”, afirma Efigênia. Segundo ela, o trabalho do bibliotecário, nesse caso, é de buscas em bases de dados de patentes para ajudar no desenvolvimento de produtos diferentes dos que já existem.

Saiba mais

Salários
Os profissionais de biblioteconomia recebem salários de, pelo menos, R$1.500, segundo Sandra Cabral, do Conselho Federal de Biblioteconomia. Porém, os valores variam de acordo com a empresa. Quem trabalha em escritórios jurídicos, recebem, geralmente, remuneração mais alta.. Em São Paulo, é possível encontrar bibliotecários ganhando até R$ 16 mil. Em Fortaleza, o valor pode ficar por volta de R$ 9 mil nesses casos.
EM BAIXA

CONTRATAÇÃO
Apesar da lei que exige um bibliotecário em cada escola, ela ainda não é cumprida. Além disso, algumas empresas contratam estagiários da área, mas não possuem o profissional.
EM ALTA

NECESSIDADE
Quase todas as áreas necessitam de um profissional de biblioteconomia para otimizar buscas de informação. Para regulamentar os profissionais da área, o Ceará conta com conselho e associação.
BATE-PRONTO

O POVO - Como você entrou na área?
Rita - Eu cursava História e trabalhava. Tive que começar a organizar o material para facilitar o meu trabalho fazendo indexação e percebi que podia descobrir mais sobre isso. Então, entrei no curso de Biblioteconomia.

O POVO - Em que áreas um bibliotecário pode atuar?
Rita - Lidamos com editoração de livros, catalogação e arquivos. Somos profissionais da informação e devemos desmistificar essa visão de que trabalhamos apenas com livros. Hoje, trabalhamos com diversas mídias como arquivos de TV, arquitetura da informação na Internet, redes sociais. Dizem que tudo está na Internet, no Google, mas se não for organizado de forma eficiente, com palavras e termos chaves, não é possível encontrar.

O POVO - Qual a dica para quem está começando?
Rita - Quem já está na faculdade deve procurar estágio para ter experiência. Deve-se também conhecer softwares. É importante a pessoa ver a vocação do mercado para poder saber onde atuar.

Rita de Cássia Farias, 48 anos, bibliotecária há 24.


Fonte: http://www.opovo.com.br/app/opovo/empregos/2011/11/19/noticiaempregosjornal,2337010/cientistas-da-informacao.shtml

Lembrar é essencial- Márcia Tiburi

Lembrar é essencial *
Marcia Tiburi


O homem é o animal que lembra. Podemos dizer isso tendo em conta que não haveria, de um modo geral, a cultura, sem o trabalho da memória. Definir o que é a memória, porém, não é fácil. Os cientistas tentam explicá-la afirmando seu funcionamento físico-químico em nível cerebral. Os historiadores criam suas condições gráficas por meio de documentos e provas, definem, com isso, uma linguagem compreensível sobre o que ela seja: o que podemos chamar de “campo da memória”. Os artistas e escritores tentam invocar seus subterrâneos, aquilo que, mesmo sem sabermos, constitui nosso substrato imagético e simbólico. Mas o que é a memória para cada um de nós que, em tempos de excesso de informação, de estilhaçamento de sentidos, experimenta o fluxo competitivo do cotidiano, a rapidez da vida, como se ela não nos pertencesse? Como fazemos a experiência coletiva e individual da memória? É possível lembrar? Lembrar o quê? Devemos lembrar?

Se esta pergunta é possível, a contrária também tem validade: haverá algo que devamos esquecer?
A memória é um enigma
Para os antigos gregos Mnemósyne era a deusa da memória, a mãe das nove musas que inspiravam os poetas, os músicos, os bailarinos. Seu simbolismo define que a memória precisa ser criada pelas artes. Numa civilização oral como foi a grega nada mais compreensível do que uma divinização da memória. A memória é a mãe das artes, tanto quanto nelas se reproduz, por meio delas é que mantém sua existência. Por isso, ela presidia a poesia, permitindo ao poeta saber e dizer o que os humanos comuns não sabiam. Que a memória seja mãe das musas significa que a lembrança é a mãe da criatividade. Mas de que lembrança se está tratando?
Para além da mitologia, na filosofia, distinguiam-se dois modos de rememoração: Mneme, espécie de arquivo disponível que se pode acessar a qualquer momento e Anamnese ou a memória que está guardada em cada um e que pode ser recuperada com certo esforço. A primeira envolve um registro consciente, enquanto a segunda manifesta o que há de inconsciente na produção de nossas vidas, ou seja, o que nos constitui sem que tenhamos percebido que nos aconteceu, que se forjou por nossa própria obra.
A memória era a deusa que permitia a conexão com os mortos, com o que já foi, com o que poderia ter sido, com o que, para sempre, não mais nos pertence desde que, com ele, não partilhamos o tempo.
Quando esquecer é uma culpa mal-resolvida

O atual modo de vida, pleno de elementos descartáveis, não privilegia a memória. O que se chama “consumismo” tem relação direta com o abandono e o descaso com a memória. Descarta-se tudo, de objetos de uso doméstico a amigos, de roupas a amores. O projeto ecologista da reciclagem é, de certo modo, um trabalho de memória. Na apressada vida urbana vige a regra de que tudo passa, o encanto pertence apenas à novidade, tudo vira lixo instantaneamente. A fungibilidade, a capacidade de trocar, é universal. Se tudo o que existe deve ser descartado, significa que sua existência não faz muita diferença. Esquecer assim, ou elevar o esquecimento a esta lei, é algo perverso.
Este gesto tem, porém, uma estranha e maléfica compensação. Numa cultura em esquecer é a lei, ressentir é inevitável. O ressentimento é a incapacidade de esquecer, impossibilidade de deixar de lado, de abandonar o verdadeiro lixo, ou, em outros termos, o passado com o que, nele, foi espúrio. Ressentimos porque não somos capazes de ver além, carregamos o sofrimento como gozo, ou seja, como o que, contraditoriamente, nos faz bem.
Por outro lado, o ressentimento é movido pela culpa de ter abandonado algo que, injustiçado, tempos depois, reclama sua volta. O ressentimento é um mal por ser fruto da culpa. A culpa, por sua vez, é como uma doença contagiosa da qual a humanidade inteira foi vítima, e ainda é, enquanto não aprende a compreender e aceitar suas próprias escolhas. A esta capacidade chama-se hoje responsabilidade. Mas mesmo com a responsabilidade é preciso tomar cuidado para que ela não seja um mero disfarce da culpa que ainda não eliminamos. Responsabilidade só é possível quando há solidariedade. Quando nos responsabilizamos não apenas por nossas vidas e atos, mas percebemos que somos apenas parte da vida e que muitas de nossas escolhas são coletivas.
Vantagens da memória e do esquecimento
Nietzsche, filósofo que morreu em 1900, dizia que a memória tinha vantagens e desvantagens na vida. É certo que quem quiser viver bem, quem almejar de algum modo ser feliz, deverá provar o equilíbrio entre lembrar e esquecer. Temos, neste momento, um problema de distinção: o que devemos esquecer, o que devemos lembrar? Na busca de um meio termo, mais vantajoso será guardar o que nos traz bons afetos, ou alegria e descartar o que nos traz maus sentimentos, ou tristezas. Motivos para a infelicidade não faltam a quem quiser olhar para a história humana e a história pessoal. Mas enquanto a memória histórica nos faz bem, pois nos mostra o que se passou para chegarmos até aqui, a memória pessoal faz o mesmo, mas ela só tem sentido se conectada à memória coletiva. Para poder buscar a alegria de viver é preciso olhar para a frente, para o futuro e reinventar a vida a cada dia. É esta invenção do presente que nos dará, no futuro, um passado do qual tenhamos prazer em lembrar. Viver do passado ou no passado, só prejudica o presente no qual, elaboramos o que será amanhã o passado.
Esquecer com criatividade

Diante do trauma, da lembrança que ficou recalcada em substratos profundos de nossa inconsciência, que define o ser e o agir sociedades inteiras, como o que foi vivido em catástrofes como a nazista, a do Vietnã, a da colonização e escravização no Brasil, e tantas que conhecemos nas vidas pessoais e familiares, esquecer torna-se um remédio contra o sofrimento. Mas esquecer não é apagar o que se viveu de modo abstrato, muitas vezes é justamente pela “rememoração” que nos lembramos. Por isso, contar histórias, fazer arte, ou seja, deixar-se levar pelas musas, continua sendo a melhor saída. A vida criativa é a única que evita o mau esquecimento e, por outro lado, a má lembrança que é o ressentimento.


 

* Publicado na Revista Vida Simples, Março 2007

Fonte: http://www.marciatiburi.com.br/textos/lembrar.htm
 

Aprender a pensar é descobrir o olhar- Márcia Tibúri.

Aprender a pensar é descobrir o olhar
Márcia Tiburi



A diferença entre ver e olhar é tanto uma distinção semântica que se torna importante em nossos sofisticados jogos de linguagem tomados da tarefa de compreender a condição humana – e, nela, especialmente as artes –, quanto um lugar comum de nossa experiência. Basta pensar um pouco e a diferença das palavras, uma diferença de significantes, pode revelar uma diferença em nossos gestos, ações e comportamentos. Nossa cultura visual é vasta e rica, entretanto, estamos submetidos a um mundo de imagens que muitas vezes não entendemos e, por isso, podemos dizer que vemos e não vemos, olhamos e não olhamos. O tema ver-olhar – antigo como a filosofia e a arte – torna- se cada vez mais fundamental no mundo das artes e estas o território por excelência de seu exercício. Mas se as artes nos ensinam a ver – olhar, é porque nos possibilitam camuflagens e ocultamentos. Só podemos ver quando aprendemos que algo não está à mostra e podemos sabê-lo. Portanto, para ver olhar, é preciso pensar.

Ver está implicado ao sentido físico da visão. Costumamos, todavia, usar a expressão olhar para afirmar uma outra complexidade do ver. Quando chamo alguém para olhar algo espero dele uma atenção estética, demorada e contemplativa, enquanto ao esperar que alguém veja algo, a expectativa se dirige à visualização, ainda que curiosa, sem que se espere dele o aspecto contemplativo. Ver é reto, olhar é sinuoso. Ver é sintético, olhar é analítico. Ver é imediato, olhar é mediado. A imediaticidade do ver torna-o um evento objetivo. Vê-se um fantasma, mas não se olha um fantasma. Vemos televisão, enquanto olhamos uma paisagem, uma pintura.

A lentidão é do olhar, a rapidez é própria ao ver. O olhar é feito de mediações próprias à temporalidade. Ele sempre se dá no tempo, mesmo que nos remeta a um além do tempo. Ver, todavia, não nos dá a medida de nenhuma temporalidade, tal o modo instantâneo com que o realizamos. Ver não nos faz pensar, ver nos choca ou nem sequer nos atinge. As mediações do olhar, por sua vez, colocam-no no registro do corpo: no olhar – ao olhar - vejo algo, mas já vitimado por tudo o que atrapalha minha atenção retirando-a da espécie sintética do ver e registrando- a num gesto analítico que me faz passear por entre estilhaços e fragmentos a compor – em algum momento – um todo. O olhar mostra que não é fácil ver e que é preciso ver, ainda que pareça impossível, pois no olhar o objeto visto aparece em seus estilhaços de ser e só com muito custo é que se recupera para ele a síntese que nos possibilita reconstruir o objeto. É como se depois de ver fosse necessário olhar, para então, novamente ver. Há, assim, uma dinâmica, um movimento - podemos dizer - um ritmo em um processo de olhar-ver. Ver e olhar se complementam, são dois movimentos do mesmo gesto que envolve sensibilidade e atenção.

O olhar diz-nos que não temos o objeto e, todavia, nos dispõe no esforço de reconstituí-lo. O olhar nos faz perder o objeto que visto parecia capturado. Para que reconstituí-lo? Para realmente captura-lo. Mas essa captura que se dá no olhar é dialética: perder e reencontrar são os momentos tensos no jogo da visão. Há, entretanto, ainda outro motivo para buscar reconstruir o objeto do olhar: para não perder além do objeto, eu mesmo, que nasço, como sujeito, do objeto que contemplo – construo enquanto contemplo. Olhar é também uma questão de sobrevivência. Ver, por sua vez, nos liberta de saber e pode nos libertar de ser. Se o olhar precisa do pensamento e ver abdica dele, podemos dizer que o sujeito que olha existe, enquanto que o sujeito que vê, não necessariamente existe. Penso, logo existo: olho, logo existo. Eis uma formulação para nosso problema.

Mas se não existo pelo ver, não estou implicado por ele nem à vida, nem à morte. Ver nos distancia da morte, olhar nos relaciona a ela. O saber que advém do olhar é sempre uma informação sobre a morte. A morte é a imagem. A imagem é, antes, a morte. Ver não me diz nada sobre a morte, é apenas um primeiro momento. Ver é um nascimento, é primeiro. O olhar é a ruminação do ver: sua experiência alongada no tempo e no espaço e que, por isso, nos instaura em outra consistência de ser. Por isso, nossa cultura hipervisual dirige-se ao avanço das tecnologias do ver, mas não do olhar. É natural que venhamos a desenvolver uma relação de mercadoria com os objetos visualizáveis e visíveis. O olhar implica, de sua parte, o invisível do objeto: a coisa. Ele nos lança na experiência metafísica. Desarvoranos a perspectiva, perturba-nos. Por isso o evitamos. Todavia, ainda que a mediação implicada no olhar faça dele um acontecimento esparso, pois o olhar exige que se passeie na imagem e esse passear na imagem traça a correspondência ao que não é visto, é o olhar que nos devolve ao objeto – mas não nos devolve o objeto - não sem antes dar-nos sua presença angustiada.

O olhar está, em se tratando do uso filosófico do conceito, ligado à contemplação, termo que usamos para traduzir a expressão Theorein, o ato do pensamento de teor contemplativo, ou seja, o pensar que se dá no gesto primeiro da atenção às coisas até a visão das idéias tal como se vê na filosofia platônica. Paul Valéry disse que uma obra de arte deveria nos ensinar que não vimos aquilo que vemos. Que ver é não ver. Dirá Lacan: ver é perder. Perder algo do objeto, algo do que contemplamos, por que jamais podemos contemplar o todo. O que se mostra só se mostra por que não o vemos. Neste processo está implicado o que podemos chamar o silêncio da visão: abrimo-nos à experiência do olhar no momento em que o objeto nos impede de ver. Uma obra de arte não nos deixa ver. Ela nos faz pensar. Então, olhamos para ela e vemos.




Artigo originalmente publicado pelo Jornal do Margs, edição 103 (setembro/outubro).
http://www.artenaescola.org.br/pesquise_artigos 

 

 

Fonte: http://www.marciatiburi.com.br/textos/aprender.htm

É preciso reconquistar o tempo- Olgária Matos.

Essa entrevista tem como foco o tempo e a entrevistada é a filósofa Olgária Mattos. Fiz há dois anos, mais ou menos, e foi publicada, após edição, num especial sobre o Pós-humano. Aqui a coloco na íntegra, cumprida mas bem interessante. Lembro que foi um chacoalhão na cabeça.

É preciso reconquistar o tempo

Filósofa diz que as pessoas estão conscientes de que “não têm tempo”, mas não sabem o que fazer com o que lhes resta de tempo livre.

OLGÁRIA MATOS, filósofa renomada, doutora pela École des Hautes Études, de Paris, e professora aposentada da USP, ganhadora do prêmio Jabuti de 1990 com o livro Os arcanos do inteiramente outro - a Escola de Frankfurt, a melancolia, a revolução (ed. Brasiliense) é autora também de Rousseau, uma Arqueologia da Desigualdade, além de inúmeros ensaios, artigos e palestras com enfoque nos temas Iluminismo, sujeito, tempo, consciência e Revolução. Nessa entrevista concedida em sua casa, na zona sul de São Paulo, ela fala do “conceito de tempo e suas mutações no mundo contemporâneo”. Por exemplo, sua resposta à idéia geral de que hoje as pessoas não têm tempo é, resumida, a seguinte: “a forma mais perversa (...) é a alienação do tempo, você não ser senhor do seu tempo, você é determinado pelo tempo das coisas e não escolhe mais sua vida.” Sobre a hiperatividade dos dias atuais, ela diz que é fazer muitas coisas com nenhum sentido. E que as pessoas querem matar o tempo porque não sabem o que fazer com o tempo livre. Um visão instigante sobre os dias de hoje.

por Thiago Domenici

Gostaria que a senhora falasse o que é o tempo e o que são as mutações do tempo?
Santo Agostinho diz: “quando não me perguntam o que é o tempo eu sei, quando me perguntam eu já não sei mais”. Porque o tempo pode ser acelerado em anos, pode ser extremamente longo em segundos, são experiências muito diferentes as que a gente pode falar sobre o tempo. No mundo contemporâneo, a impressão que dá é que existe um “não tempo”, uma experiência do tempo que não passa, porque ele não se faz mais com experiências. Na verdade, experiência supõe uma relação de conhecimento com valores e acontecimentos do passado que são transmitidos das formas mais diversas. Os antigos tinham muito essa idéia – até recentemente tínhamos, até pelo menos o século 19 –, de que era preciso resistir aos embates do infortúnio, quer dizer, reagir aos acontecimentos inesperados e catastróficos para continuar vivo. As parábolas e fábulas tinham esse sentido de ensinamento. Hoje não temos mais tempo para essa tessitura coletiva das experiências dos sonhos, das expectativas.

E por que a gente não tem mais tempo?
Tanto no mundo grego quanto na Idade Média até o Renascimento você tem a idéia do mundo perfeito. Que é o cosmos grego? É um todo, fechado, onde cada coisa ocupa o lugar que lhe é próprio na ordem da criação, o otimismo grego achando que o homem nasceu para a felicidade, sua destinação é a felicidade, ele pode escolher os meios para chegar à felicidade. Agora, os fins últimos ele não escolhe. Então é muito tranqüilizador esse universo, não é habitado por nenhum desejo de autoridade, ele já está no perfeito, já está na verdade, e a possibilidade de conhecimento é sempre no sentido de um aprimoramento de si, de um cuidado de si. Na Idade Média você tem a criação divina, ali já é a emanação da beleza invisível transcendente. Quando chega o século 16, 17 se acaba a idéia de universo finito e entra em cena o universo infinito. A idéia de limite, que é uma idéia grega, passa a ser entendida como barreira, como privação, e essa idéia de infinito e de deslimite está na base dos esportes radicais, das performances até a morte, da obesidade mórbida, do uso imoderado de drogas, enfim, todas as formas do excesso, do deslimite. Além do que a modernidade, a partir dos séculos 17 e 18, começa a elogiar a paixão – a paixão é o excesso, e a nossa cultura valoriza o excesso.

É aí que entra a história do tempo qualitativo e do quantitativo?
Vamos supor: como era a sobrevivência na Idade Média? Era, sobretudo, no campo, então você tinha que seguir as estações do ano, as colheitas, a plantação, o tempo de trabalho não se sabe exatamente, mas a média devia ser umas quatro horas por dia, no máximo. Era um tempo qualitativo, porque você seguia aquilo que era da natureza das coisas. Por exemplo, trabalhar antes do nascer do sol ou depois do pôr-do-sol era considerado imoral, era pecado, porque você desafiava a ordem da criação. Com o advento da luz elétrica, no século 19, o dia passou a ter 24 horas, o trabalho noturno entrou com uma voracidade de consumir todas as forças do homem, até o fim – isso foi o capitalismo do século 19, e está voltando. Antes tinha um tempo na Grécia, em Roma, na Idade Média e nas religiões que era um tempo livre, mas o que era o tempo livre? Era um tempo totalmente autônomo com relação às necessidades materiais da sobrevivência, um tempo que você dedicava à contemplação, por mais indefinida que pra nós seja essa palavra contemplação. Você não se entretinha com nada que dissesse respeito à materialidade da vida, era a liberdade absoluta. Hoje não temos mais essa idéia de tempo livre, já é preenchido de coisas, então você tem um tempo inteiramente espacializado, não é mais qualitativo, ele não diz respeito a propriedades representativas de um acontecimento, de uma pessoa ou de um desejo. Essa idéia de que você não tem tempo é a forma mais perversa da alienação. Marx já dizia isso, a forma mais perversa não é a alienação do trabalhador com relação ao produto do seu trabalho e ao sentido do trabalho, é a alienação do tempo, você não ser senhor do seu tempo, você é determinado pelo tempo das coisas e não escolhe mais a sua vida. É o que está acontecendo hoje. Você vê, por exemplo, que um empresário trabalha 24 horas e não pára um segundo – esse empresário na visão de um homem da Idade Média vive pior do que um servo da gleba. São mutações na experiência do tempo e na maneira de vivenciá-lo. Independentemente da modalidade do acúmulo do capital e da distribuição da riqueza, esse capitalismo acelerado, que é o das nanotecnologias e tal, é uma coisa extremamente nova no seguinte sentido: se você pensa no capitalismo até a década de 30, ou até pelo menos até a Primeira Guerra Mundial, havia uma autonomia da política com relação à economia, tanto que a economia tinha que pressionar a política para que a política revisasse seus interesses de acumulação. Quando isso não acontecia, tinha guerra, tinha ditadura, para forçar a política a realizar os desígnios da economia. Hoje não, há uma total fusão entre a economia de mercado e a sociedade de mercado, não há mais espaço de autonomia, porque a política nada mais é do que a realização do status quo econômico. Você não tem esse espaço mínimo que se chamava espaço público. E não pode ter liberdade política se está raciocinando em função do que a economia permite e do que ela não permite. Então, essa liberdade está tendendo a desaparecer, porque o realismo político está tomando o lugar da inteligência social.

A senhora aborda em suas palestras a questão do tédio, da monotonia e do desejo de “matar o tempo”. A gente não tem tempo e ao mesmo passo quer matar o tempo...
Recentemente foi feita uma pesquisa na França para ver as experiências do tempo nas metrópoles, nas classes A, B, C e D. As pessoas que não tinham tempo nenhum mesmo, para nada, eram os desempregados. Eles sentiam a sensação de que não tinham tempo. Provavelmente assim: um dia faz o currículo, no outro dá um telefonema, outro dia espera uma resposta e assim vai. Então é um tempo totalmente vazio, sem sentido e também tem o seguinte: como há uma sensação, vamos dizer, transversal na sociedade, de que ninguém tem tempo, esse “não tempo” acaba afetando a todos, não diz respeito só àqueles que não têm tempo. Quem tem tempo acaba sentindo que não tem, é uma coisa estranha que acontece. A hegemonia do tempo dominante é assimilada por todos, não vai para uma classe só, racionalmente localizada, porque ela trabalha 24 horas, não, é algo que se espalha por toda a sociedade. Então, esse sentimento de não ter tempo é a manifestação de algo estrutural na sociedade, que é o trabalho. O trabalho é totalmente esvaziado de sentido, no mundo capitalista, com a automação do movimento do gesto do trabalhador. Quem captou muito bem a modernidade do tempo completamente sem sentido do trabalho alienado foi o Kafka. No livro O Processo, por exemplo, quando o personagem chega para tentar descobrir qual é a condenação e nunca vai saber qual é a sua culpa e nem qual é a condenação. O que ele vê? Vê um funcionário espancando um sentinela e pergunta: “Por que você está espancando?” O funcionário não pára de espancar e fala: “fui contratado pra espancar, então espanco”. É o trabalho alienado. Marx diz assim: “Quando o homem está no lugar de trabalho, ele se sente fora de si, só se sente junto a si quando está fora do trabalho”. O trabalho continua sendo o trabalho alienado que esmaga fisicamente ou espiritualmente, porque não tem sentido nenhum. Agora, a monotonia contemporânea é o tempo da longa duração, e no capitalismo essa longa duração é insuportável, por isso as pessoas querem matar o tempo, porque não sabem o que fazer com o tempo livre.

Tem a questão da tecnologia no nosso tempo, parece que quanto mais tecnologia temos menos tempo, não?
As tecnologias fazem parte desse desejo de novidade, mas não são o novo. Porque o novo é muito raro acontecer, a última grande invenção da ciência deve ter sido no século 19, comecinho do século 20. Agora estão desenvolvendo o que já foi descoberto até a Primeira Guerra Mundial ou por volta disso. Mas você tem uma pulsão da novidade. Porque, como o que domina todo o imaginário, todo o ritmo da vida biológica e todo o ritmo da vida cotidiana é a produção e o consumo de mercadorias, a consciência disso está pautada pela sucessão e substituição rápida do mesmo. Quer dizer, imagine no século 19 o que deve ter sido a primeira experiência da produção em série, quando se vê o objeto único aos milhares. Essa experiência de vertigem, de alucinação, que é o mesmo que estar em algum lugar e ter um outro igualzinho a mim, milhares de pessoas todas do mesmo jeito, parecendo o mesmo, produz uma monotonia terrível. O mesmo objeto milhões de vezes é totalmente insuportável; como você vai consumir, se tudo é a eterna volta do mesmo? A não ser produzindo pequenas diferenças de objeto para objeto que não querem dizer absolutamente nada, mas criam a ilusão da individualidade. Você perguntou da tecnologia. O que o Marx dizia? Você tinha a infra-estrutura da sociedade, que é o modo de produção e o modo de apropriação, e tinha uma superestrutura, que eram as produções culturais da sociedade – arte, religião, filosofia, ideologia, ciência e tecnologia. A ciência e a técnica faziam parte das produções culturais, espirituais, da sociedade. Hoje a ciência e a técnica são força produtiva. Estão diretamente vinculadas ao aumento do capital, não têm mais autonomia nenhuma. O acúmulo do capital depende da tecnologia, que depende do desenvolvimento econômico. Então, como virou infra-estrutura, a ciência também está comprometida no não-pensamento. Porque, do ponto de vista do conhecimento, você não tem mais a ciência, porque ela é predominantemente pragmática-operatória, cada vez operando mais com as agências de financiamento privadas ou com as agências de Estado. Por exemplo, a NASA, a ciência dos Estados Unidos é diretamente ligada ao departamento da guerra, direto! Na França há um pouco mais de autonomia, na Alemanha também, na Inglaterra não sei, deve haver, e no Brasil não existe. Então você tem a substituição da lei – que é o conhecimento das sutilezas da ciência e das suas mutações – para o funcionamento automático do pensamento. O que é a Fuvest senão o pensamento do computador? É o estudante mais rápido, que pega a pegadinha mais rápido. É o vazio do pensamento com funcionamento automático, então não tem pensamento. Tudo isso vem da predominância de uma racionalidade da ciência que é do tipo matemático-algébrico-analítico, portanto, abstrato, esvaziado de sentido, e você tem o mecanismo do pensamento, todo um arsenal de dispositivos lógicos, vazio. Esse não-pensamento resulta, na hora do consumo, em não saber consumir. Quer dizer, você já não sabe produzir, não sabe fazer, porque aplica a fórmula. Você não tem mais um saber, tem um know-how, e na hora do consumo não tem um “saber viver”. Antes você tinha a filosofia, a ciência, a arte, a religião, tudo que ao longo do tempo era te prover de um saber fazer, era um saber viver. Hoje você está em descompasso entre o que precisa e o que consome. Aí consome o que não precisa e precisa daquilo que não consome. Esse mal-estar da temporalidade veio da não-coincidência do que você tem e o que você deseja, mas você não deseja o que tem e aí, obviamente, como o desejo é infinito, veja só, o capitalismo veio para ficar, porque – como toda tradição filosófica e religiosa fala – somos seres carentes, seres desejantes, então a tendência é preencher o vazio da carência com objetos de satisfação. Ora, o capitalismo produz a carência, ele não quer preencher uma necessidade, quer criar necessidades ao infinito. Então, com essa diferença minimal de um objeto a um objeto para você continuar consumidor, é o tempo do consumo que determina o tempo interno. E o tempo da subjetividade você não tem mais. Como você percebe isso hoje? Todas as experiências humanas que necessitam de tempo, da longa duração, ficam comprometidas: amizade, relação pais e filhos, amor.

E o que esperar do futuro?
Veja só, a promessa exige longo prazo. Quando você promete alguma coisa, está incluída a idéia da dúvida, você não sabe se vai conseguir cumprir ou não. Então precisa do tempo longo para saber se cumpriu a promessa. A idéia do juramento era assim. Não havia possibilidade de romper um juramento a não ser sendo perjúrio. Hoje é ridículo alguém jurar ou prometer alguma coisa, porque sabe que não vai cumprir, e se cumpriu foi por acaso. Então todo esse tempo de expectativa e, portanto, de futuro, está totalmente desaparecido. Hoje só se fala do futuro para justificar o que é o presente, não existe mais a idéia do tempo longo e o que vai acontecer. E o mal-estar vem muito dessa dissolução da idéia de futuro. E como a gente fala de futuro? Fala em mercados futuros, o futuro virou mais um valor de troca. Então quando se fala: “os jovens não têm expectativa de futuro” – não têm um monte de coisa porque não têm expectativa de futuro e não sabem o que fazer com o tempo. Porque esse capitalismo produz uma cultura e uma educação cuja atividade cerebral é próxima a zero. É pulsional, eu quero, vou lá e pego. Aí quer que a juventude faça o quê? Vira delinqüente ou vira entediado. Porque o tempo que lhe é imposto como a forma por excelência da vida é o consumo de bens materiais. Sem nenhum ideal de espírito. E a técnica e a ciência se desenvolvem não sabendo para onde vão.

A ciência não pensa no ser humano?
A ciência não pensa. Ela faz. O mundo contemporâneo não pode ter filosofia, porque a filosofia pensa o pensamento. A ciência deveria pensar a ciência. O que é a ciência para os gregos? Primeira coisa é: “Isso que vou pesquisar é útil ou prejudicial? Visa os fins últimos do sumo bem ou não? Se não, não vou pesquisar isso”. A energia nuclear é uma tecnologia não-poluente. Meu Deus! Leva milhões de anos para acabar a toxicidade e não é poluente? Por que? Porque não pensa. Porque se você dissesse: “Não, isso nós não vamos fazer porque o risco é morrerem tantos”. O fato de haver risco levaria a pesquisar outras coisas. Mas esse capitalismo é inimigo do pensamento autônomo, é inimigo da liberdade, é inimigo da vida feliz e da vida justa. E não é um capitalista, é o capitalismo! É uma estrutura alienada que abrange também o burguês, que também está vitimado por essa compulsão ao consumo, a compulsão à produção sem sentido nenhum.

Há cientistas falando que daqui a quarenta anos a inteligência artificial será algo palpável, estão até discutindo a ética dos robôs se o robô tem que ter uma carga horária específica de trabalho, se tem que ter previdência. Qual poderá ser a função deles no futuro?
Não dá muito para antecipar, mas há um tempo atrás houve uma discussão no Parlamento de Tóquio se devia ou não estender os direitos humanos aos robôs inteligentes. Isso é um fenômeno que o Marx estudou e é a pessoa que foi mais longe, falando da inversão do inanimado em animado. O inanimado toma o lugar do homem. E é claro que você pode falar em direitos humanos para robôs, porque eles não são praticados para as pessoas. Talvez sejam para as coisas, porque a alienação é um fenômeno em que as coisas ocupam o lugar do que é vivo. Então é bem possível. Você vê o jeito como as pessoas cuidam do carro no domingo de manhã, eles lavam com um cuidado que certamente não têm com os filhos. Agora, esse é o final da coisificação. A ciência moderna confunde liberdade de pesquisa com onipotência, só que não tem idéia de limite. Quer dizer, atividade zero de pensamento. A sociedade do narcisismo e o narcisismo é uma coisa de não saída de si, não é o ideal de ego, é o ego ideal, fica imerso em si mesmo, não chega ao outro. A tendência disso são as sociedades da incivilidade, porque o outro não existe. Há pesquisas com crianças que ficam na frente de computador, o que, do ponto de vista de amadurecimento psicológico e, portanto, da progressão do narcisismo e da onipotência é muito ruim. Você dá o comando e ele responde e isso aí aumenta muito a onipotência. A ciência é onipotente, e as pessoas também querem que aconteça na hora. Você vê a própria educação. A educação é um negócio chato. Por que? Porque a criança vai para a escola e tem que ficar sentada, e ela gosta de ficar correndo, de quebrar coisas, de subir na parede. Tem aqueles mais quietos, mas, então, o que é? “Ah, agora você tem que aprender a escrever.” Ah, então tem que fazer esse movimento, aí você tem que ficar sentado. Então, o que é a educação contemporânea no Brasil? Porque a educação está em crise? Por que a evasão escolar? Porque a escola não está adaptada à realidade da criança. A escola é para tirar a criança da sua realidade e criar outros hábitos. Agora, o que você faz? A criança não está adaptada, então vamos adaptar, vamos fazer massinha, vamos não sei o quê. É um tédio fora do comum. E o que acontece? A criança quebra a escola. O adolescente quebra a escola, porque ele vai fazer dentro da escola o que ele já faz melhor fora. Já faz capoeira fora. “Ah, vai fazer capoeira”. Porque “para pobre o pouco está bom”. Então, dá um pouquinho de capoeira que ele já faz, porque essa é a realidade dele. Por que não dá um Mozart, uma aula de violino para ele? “Ah, não. Para pobre, o pouco está bom”. Tudo é assim, essa idéia de tudo rápido, tudo um pouquinho, emprega na educação. Leitura? Dá uma olhada, não tem nada mais que exija tempo do que leitura. Como é que você ensina o português? A tendência é essa hoje no mundo inteiro. O novo presidente francês Sarkozy quer fazer isso, quer tirar a literatura do currículo francês. Uma barbárie. Então, tudo o que exige tempo, quer dizer, a educação, quando ela começa a imitar esse tempo acelerado, não fala mais nada. A educação não é para te dar um pouquinho de instrumento para você se dar bem na vida e ficar rico ou ter ascensão social. Não é isso. A educação é para te ensinar a ter paciência, as grandes obras de literatura são as obras que elaboram o teu rumo interno. Você tem que entender aquilo e ao entender, você se entende melhor, então é todo um mundo que desaparece.

Tem que ensinar a estimular o pensamento...
Porque você tem que entender aquilo que aquela personagem está vivendo e porque ela está vivendo, aí você começa a tomar para você mesmo aquilo. O português, por exemplo, nos parâmetros curriculares nacionais consta assim: “O ensino da Língua Portuguesa visa criar cidadãos responsáveis.” Pronto. Quer dizer, não tem literatura. Não precisa ter. Aí a criança é analfabeta secundária por quê? Porque não aprendeu a ler através da literatura. Então na hora que você pega um texto mais complexo, não dá para entender. Essa idéia de que a educação tem que atender a sociedade, ao que a sociedade tem, é a incivilidade absoluta. Você dá um pouquinho rápido, aprende um pouco, já chega. Você não tem todo o tempo da educação, que é o tempo de aprender a lidar com o tédio. E o que é educação? O que é casamento? O que é ter filho? O que é viajar? É lidar com o tédio. Os mais bem sucedidos são aqueles que sabem. Agora, essa escola é o tédio, ela não ensina a lidar com o tédio. Porque o tempo não existe, você tem que passar rápido para outra coisa.


Fonte: http://www.notaderodape.com.br/2009/05/entrevista-e-preciso-reconquistar-o.html

Profissões: biblioteconomia

Profissões: biblioteconomia


Bruno Mateus - Ragga
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Matheus Dias

John Lennon, em uma entrevista em 1966, afirmou que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. Tudo bem, esse papo deu e ainda dá muito pano pra manga. Mas e em questão de história? O que veio primeiro: a biblioteca ou Cristo? A primeira biblioteca foi construída sete séculos a.C, quando Jesus nem pensava em dar as caras por aqui. A verdadeira expansão dos “lugares do saber” se deu com os gregos. A Biblioteca Pública do Estado da Bahia, que fica em Salvador, construída em 1811, é a primeira não só do Brasil, mas da América do Sul. A profissão de bibliotecário foi regulamentada em 1962, obrigando assim, a obtenção de diploma de nível superior pra quem quer trabalhar como tal. Existem o Conselho Federal de Biblioteconomia e suas divisões regionais.

Classificar, organizar, documentar, analisar e conservar o acervo de bibliotecas e centros de informações. Esses são alguns deveres do bibliotecário. Ou seja, lidar com cultura e informação é com ele mesmo. Apague da sua cabeça aquela imagem que, por ventura, você tem de um profissional da área. Não, ele não tem que ser velho, chato, carrancudo e usar óculos. Pelo contrário, deve ser simpático, tratar bem o público e ter uma boa base intelectual, além de acompanhar os avanços tecnológicos. Quem pensa que o único habitat profissional de um bibliotecário é uma biblioteca cheia de mofo e poeira está redondamente enganado. Ele pode trabalhar em centros de documentação, arquivos, museus, centros culturais e de memória, editoras, empresas, provedores de internet, ONGs, clubes e associações.

“O bibliotecário tem que ser uma pessoa que gosta de aprender e socializar. Ele precisa saber trabalhar em equipe”, analisa Cíntia de Azevedo Lourenço, professora e coordenadora do curso de biblioteconomia da Universidade Federal de Minas Gerais. O profissional tem que lidar com informação de diversas áreas, por isso, na opinião da professora, cultura geral é fundamental pra quem quer se dar bem no mercado. Na UFMG, Cíntia explica que são oferecidas disciplinas de diversas áreas, como gerencial e de tecnologia da informação.

O estudante também pode puxar matérias de outros cursos. O estágio continua sendo fundamental: “A demanda de estágios é muito boa. Já conseguem no 1° período”, conta. A própria universidade oferece estágios. O Carro-Biblioteca é um deles e promove a leitura e inclusão digital em comunidades carentes.
A informática também é um campo que o profissional deve estar atento e ter uma noção básica. “Ele (o bibliotecário) não tem que saber fazer ou montar os programas, mas, sim, usar o software. Saber dialogar com outras áreas”, afirma a professora. Quanto ao mercado, ela avisa: “Para os melhores empregos é preciso ter experiência. A pessoa tem que agarrar as oportunidades, abrir o leque. No geral, é uma área com muitas oportunidades”.

Marina dos Santos Mariano está no 9º (o último) período. Ela gostou muito do curso e viu que não era só na biblioteca que poderia trabalhar. “Tem muitos estágios e oportunidades”, comenta a estudante, que trabalha na área de gestão eletrônica de documentos. Ilma Irani Machado sempre quis fazer biblioteconomia. Hoje, no 8° período, se diz apaixonada pelo curso. As novas tecnologias são, em sua opinião, ferramentas que devem ser usadas para o benefício do profissional. “A pessoa tem que caminhar junto ao desenvolvimento tecnológico. Buscar na internet ou em outros meios de comunicação o que está acontecendo”, diz.

Maria Helena de Oliveira fez vários estágios durante a graduação. A poucos meses de se formar, ela ainda não sabe se será contratada e vive a expectativa. “Gostaria muito, é um trabalho que me satisfaz”, conta. Ela trabalha com gestão de arquivo eletrônico e aconselha o estudante a experimentar diversas áreas da profissão e acompanhar as evoluções tecnológicas.

Vanessa Cristina formou-se em 1997 na UFMG. Ela trabalhava na biblioteca de sua cidade, Jequitibá, interior de Minas. Com o incentivo de profissionais da área e da família, buscou informações sobre a profissão e mudou-se pra Belo Horizonte pra cursar biblioteconomia. Ela trabalha na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa desde 1998. Vanessa diz que estão abrindo muitas opções no mercado para o profissional. “É uma área que cresceu muito, tem muita procura.” Ela também deixa dicas pra quem se interessa por biblioteconomia: “Estudar muito, se preparar, ter um objetivo. Correr atrás mesmo”. Anotou? Então se dedique e vá em frente...



Fonte: http://www.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_16/2009/05/28/ficha_drops_noticia/id_sessao=16&id_noticia=11595/ficha_drops_noticia.shtml

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Uma das promessas do discurso de posse da presidente Dilma foi "garantir educação para igualdade social, a cidadania e o desenvolvimento.Será garantido aos brasileiros – em especial aos jovens – acesso a escola de qualidade que combine ensino de qualidade e capacitação profissional. O governo cuidará da pré-escola à pós-graduação, disponibilizando mais verba para estimular pesquisas e fortalecer o ensino superior. O programa Prouni será mantido e potencializado, permitindo que mais estudantes de baixa renda ingressem na universidade. O projeto de construção das Instituições Federais de Educação Tecnológica (Ifet) será ampliado e as cidades pólo com mais de 50 mil habitantes terão, pelo menos, uma escola técnica."

Penso: onde estão as verbas para a pós-graduação? Estou no mestrado há um ano e ainda não pude realizar a pesquisa de forma tranquila porque não tem bolsas de estudos na USP.

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