Hoje, 20 de junho de 2012, foi o terceiro dia do Congresso Brasileiro
de Arquivologia. Tivemos várias palestras interessantes, mas gostaria
de me deter em quatro palestras especificamente, pois foram as que eu
considerei (com a minha arbitraríssima classificação) com as que tiveram
as discussões mais instigantes para os profissionais da informação de
uma maneira geral: bibliotecários, arquivistas e museólogos.
A primeira se intitulava Progress is the Law of Life: creating a Strategic Vision for Records and Archives Management
e foi proferida pela arquivista Laura Millar, mestre e doutora em
Arquivologia e consultora em Gestão de Documentos e em Educação
Arquivística, no Canadá. Iniciou sua conferência afirmando que “o
progresso é a lei da vida” e perguntando: “Por que mudar?” Responde
afirmando que é necessário mudar a fim de consertar algo que não
funciona mais. Então, pergunta: queremos mudar os arquivos porque não
funcionam mais?”
A resposta a esta indagação é negativa, haja vista que ainda se está
comprando caixas de arquivo e essas instituições ainda não quebraram. No
entanto, as instituições arquivísticas devem mudar porque os cavalos
ainda funcionam, os telefones antigos fazem o que devem fazer; todavia,
eles não atendem nossas necessidades de hoje. As instituições ainda
estão obsoletas… mas, qual o problema? O problema é que as instituições
foram criadas para a maneira analógica, mas os arquivos agora são
digitais. A essência do nosso trabalho é adquirir documentos e tornar
acessíveis os documentos. Os arquivos podem continuar fazendo o que
estão fazendo, mas podem cair em obsolescência real.
O Arquivo Nacional da Austrália tem mais de quarenta mil itens; a
Library of Congress tem bem mais. Hoje vários recursos documentários são
postos nas redes sociais e os arquivistas não estão sozinhos na era
digital, pois também enfrentam outras indústrias de informação e de
comuni9cação, como por exemplo, os correios. O correio americano está
quase em colapso; a indústria do livro está em decadência por causa dos
e-books, Kindles, Ipads, etc. Ou seja, estamos numa revolução muito
maior que a da imprensa por Gutenberg. Muitos dos defensores do livro
impresso dá a impressão de que não entendem o mundo fora da sua janela.
Com relação aos arquivistas não se terá progresso na profissão se não se
transformarem. No entanto, as mudanças não devem ser apenas nas
instituições, mas sobretudo, nos serviços dos arquivistas. Como
preservar e fazer acessível a memória documentária da sociedade? A
cosnciência que deve se ter é que os materiais de arquivo são o
componente crítico da identidade coletiva da sociedade.
O volume da informação digital invalida o modelo existente. Temos que
olhar a estrutura das instituições. Hoje, as pessoas também precisam
preservar seus próprios documentos. O mundo não precisa de arquivo, mas
de arquivistas mais do que nunca e as necessidade que se tem são: 1)
Redefinir os arquivos em termos de prestação de contas; 2) Identificar a
responsabilização do arquivo: o arquivo tem que garantir a
responsabilidade pública; 3) Reimaginar a estrutura física dos arquivos:
dígitos não tem que respeitar alvenaria. Os repositórios digitais têm
que ser apoiados. Não precisamos ficar construindo diferentes
tecnologias para diferentes instituições de arquivo. Ainda precisamos
ter os documentos analógicos. 4) Reinventar o papel dos arquivistas: tem
que melhorar o papel do arquivista como facilitador do acesso aos
registros, ou seja, ele deve preservar a sociedade, a memória da
sociedade e não a instituição. E quanto mais há redes sociais, mas há a
necessidade de arquivos.
Na realidade, vejo outro papel para o arquivista, ou seja, ele deve
proteger o arquivo para encorajar a sociedade a ver a importância da
memória, a saber, seu papel é garantir a preservação dos documentos.
O próximo palestrante foi o Prof. José Maria Jardim, da UNIRIO, cuja palestra se intitulava: Os arquivos públicos brasileiros vinte anos após a Lei 8.159: cenários e perspectivas.
A lei a que o professor se refere é a Lei n° 8.159/1991, mais conhecida
como Lei do Arquivo. Nesta palestra ele citou várias leis oriundas da
Lei do Arquivo, quais sejam: Santa Catarina- Decreto n°3427, de 9 de
março de 1993, a qual trata da criação do Sistema Estadual de Arquivos;
Minas Gerais- Lei 12.040, de 28 de dezembro de 1995, que trata da
distribuiçao de parcela dos ICMS; Rio Grande do Norte: Decreto 12.924,
de 20 de março de 1996, o qual reestrutura o sistema nacional de
arquivos e a do Distrito Federal, a Lei n° 2.545, de 28 de março de
2000, dispõe sobre a produção dos documentos dos arquivos públicos. Já
em MG o Decreto n° 39.504, de 24 de março de 1997 dispõe sobre a
criação do Conselho Nacional de Arquivos e dá outras providências.
Portanto, as questões que foram colocadas foram sobre os novos
documentos, as novas formas de processamento e difusão de informação e
falou-se sobre o ambicioso projeto brasileiro de abrir os arquivos
governamentais. Nesse sentido, o palestrante afrima que no Brasil há uma
modernização sem modernidade e os arquivos estão nessa zona de
contradição.
A Lei do Arquivo criou uma expectativa muito grande no sentido da
ampliação da criação de leis de Arquivos Estaduais, mas apenas 10
estados da federação tem leis em relação ao arquivo. O impacto nos
estados nesses vinte anos foi muito pequeno. As leis municipais que
existem sobre o arquivo são nas cidades de Belo Horizonte, Indaiatuba,
São José dos Campos e Rio de Janeiro.
Em alguns glossários de Arquivologia o termo arquivo é um termo
naturalizado, mas carece de maior densidade. A instituição arquivística
seria conceituada como forma de custódia de documentos. As instituições
arquivísticas são vistas de formareduzida, mas nos últimos 20 anos, com a
Internet, há a ideia de uma ênfase pós-custodial, na era pós-custodial e
os arquivos se expandem. Parece ainda prematuro afirmar que já exista
um modelo de instituição arquivística consolidado na era pós-custodial.
Portanto, estamos atrasados em relação à Lei de Arquivo e a Lei de
Acesso à Informação.
A última palestra de hoje intitulou-se “Estado, Arquivos e Sociedade
no Brasil: a democracia ainda está a caminho”, proferida por Paulo
Roberto Elian dos Santos, vice-diretor da casa Oswaldo Cruz/Fundação
Oswaldo Cruz. Nesta palestra ele afirmou que não era possível entender
os arquivos sem entender a organização do Estado. Como podem as
instituições arquivísticas atuar em ponto de destaque no Estado? Deve
ser meta: maiores níveis de profissionalização dos arquivistas. Os
arquivistas devem buscar as políticas públicas, romper a visão e a
lógica predominante da trivialidade no tratamento e no acesso aos
documentos. Deve-se, portanto, buscar a valorização dos processos de
comunicação com a sociedade e os usuários. Há necessidade de pesquisas
sobre a representação social dos arquivos.
O resumo das palestras foi esse, no entanto, hoje visitei o Real
Gabinete de Leitura (indicação de Lani Lucas), porém as instiuições
públicas fecharão até domingo devido ao Rio+20.
Blog sobre Biblioteconomia e Ciência da Informação e áreas afins.
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