A ideologia dominante é a do novo-rico, que conhece o preço de todas as coisas, mas desconhece o seu valor
O movimento pela
descriminalização do uso da maconha, a luta contra a corrupção, a dos
estudantes na USP pela retirada da Polícia Militar do câmpus
universitário, dos homossexuais contra a homofobia no Brasil,
correspondem à tendência neoliberal global de ocupação do espaço público
- mas em um país que não responde pela qualidade da formação
educacional que garantiria o fortalecimento da “vida intelectual” e do
debate político. Que se pense, em particular, no movimento pela
liberação da maconha, que não desenvolve reflexões sobre o sentido da
disseminação de narcotizantes na sociedade de massa e do consumo, a
questão da cultura do excesso, cuja exemplaridade são as festas rave e a
música techno. Nos anos 80, Salvador Dalí, com todo seu surrealismo,
interpelado sobre o uso de drogas, respondeu que se deveria consumi-las
no máximo cinco vezes durante toda a vida. Ser Baudelaire ou Michaud,
Omar Khayyam ou Benjamin não é dado a muitos.
Já as mobilizações estudantis no
Chile, ao contrário das contestações no Brasil, têm sido contra a
flexibilização dos currículos escolares e a redução da carga horária nas
disciplinas humanistas e formadoras, como literatura, línguas
estrangeiras, história, etc., a fim de barrar a desigualdade no acesso
aos bens culturais e a proliferação dos privilégios educacionais. O que
manifesta a consciência de que a educação não é um serviço do qual se é
consumidor, cliente, porque ela não é uma mercadoria.
Já o movimento dos homossexuais,
mais politizado porque em luta contra preconceitos de que decorrem
sofrimentos, não se interroga sobre a tendência pós-moderna a
indiferenciações do que é por natureza assimétrico, no que diz respeito
àquelas que existem entre as gerações, entre pais e filhos, professores
e alunos, masculino e feminino, isto é, o mal-estar identitário no
mundo contemporâneo. Quanto ao movimento pela “transparência”, tem a
força da indignação, mas não questiona a corrosão do sistema
parlamentar, consequência, hoje, da falência da escolaridade e da ética
que a ela se vinculava quando a educação, ao menos em seus princípios
fundadores, humanistas e republicanos, propunha, primordialmente,
formar as crianças para fazer delas adultos mais felizes e melhores.
Auspiciada pelo dinheiro como
valor hegemônico, a ideologia dominante é a do novo-rico, que conhece o
preço das coisas, mas desconhece seu valor. Se, em seu primeiro
espírito, o capitalismo se baseou na parcimônia e no não contraimento de
dívidas e no segundo valorizou o mérito e o trabalho como
“dignificante” do homem, seu estágio atual é “sem espírito”,
entronizando o dinheiro como supremo valor, dinheiro que, na aceleração
do tempo, induz à pressa, os indivíduos perdendo o gosto do pensamento,
nada desejando aprofundar.
O próprio amálgama de diversos
delitos entendidos como corrupção (favorecimentos ilícitos, informações
privilegiadas, tráfico de influência, gratificações indevidas, desvio
de verbas públicas, suborno, omissões por interesses próprios ou
partidários, formação de cartéis), malgrado pontos em comum, atesta sua
fraca conceituação. E porque é mais fácil “derrubar o tirano do que as
causas da tirania”, a vigilância cidadã fica sujeita à demagogia,
quando a opinião pública é direcionada por interesses dissimulados, a
defesa do bem público transgredindo seus limites e invadindo a esfera
privada e a da intimidade. Tais movimentos, quanto mais conceitualmente
confusos, mais vulneráveis à apropriação oportunista.
Além disso, as mobilizações
contemporâneas se fazem com as novas tecnologias de informação, nas
quais tudo se passa “aqui e agora”. Essa temporalidade é a do efêmero,
mas em sentido pós-moderno, uma vez que ele se reduz ao episódico,
compensado pela visibilidade promovida pelas mídias. Sua lógica é a do
espetáculo que não se vincula a qualquer fundamentação teórica,
adquirindo a forma do “evento”. No passado, a vida se organizava no
tempo longo e nos laços duradouros, cuja “metafísica” subjacente dizia
respeito à percepção da impermanência de tudo, da lei do efêmero, da
vanidade das coisas e da grandeza do instante. As manifestações públicas
e ocasionais contemporâneas se constituem no âmbito de um vazio
ideológico e no quadro do anti-intelectualismo do mundo moderno, o que
se expressa na pseudoparticipação popular e em governos que se fazem
através das mídias, pela televisão e pela propaganda.
Com reivindicações particulares
voltadas para si mesmas, esses movimentos não se vinculam uns aos
outros, resultando em particularismos. Há algum tempo, as manifestações
públicas repercutiam em toda a sociedade, chamada assim a delas
participar, ativamente ou por consentimento, ao que correspondia a lei
entendida como universal, pelo reconhecimento das diferenças das
demandas sociais, unificadas, justamente, na lei universalizadora. As
mobilizações contemporâneas têm seguidores que se reúnem em comunidades
virtuais com sua solidariedade pós-moderna, sem valores comuns
admirados e compartilhados por todos.Walter Benjamin caracterizou a
modernidade capitalista como “pobreza da experiência” e “experiência da
pobreza”, mas nela identificou o novo. Pois essa pobreza “leva a
começar do começo, a retomar as coisas desde o princípio, a dar um
jeito com pouco, a construir com o pouco que se tem”.
Recorde-se que o movimento que
paralisou a França em 1968, de que decorreram desde o movimento de
emancipação feminina até a própria democratização das esquerdas
autoritárias e de seus partidos centralizadores - encontrando-se na base
até mesmo da queda do Muro de Berlim -, teve seu início com estudantes
que reivindicavam o direito de visita a suas colegas e namoradas em
seus quartos de estudantes.
Razão pela qual os recentes
movimentos no Brasil podem constituir o “princípio esperança” do
aprimoramento da vida política e do bem-viver em nosso cotidiano.
* Professora titular de
Filosofia da USP e autora, entre outros, de Benjaminianas: cultura
capitalista e fetichismo contemporâneo (UNESP)
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