O CAMINHO DO CAMPO
Por Martin Heidegger
Do portão do
Jardim do Castelo estende-se até as planícies úmidas do Ehnried. Sobre o
muro, as velhas tílias do Jardim acompanham-no com o olhar, estenda
ele, pelo tempo da Páscoa, seu claro traço entre as sementeiras que
nascem e as campinas que despertam, ou desapareça, pelo Natal, atrás da
primeira colina, sob turbilhões de neve.
Próximo da cruz do campo, dobra em busca da floresta. Sauda, de
passagem, à sua orla, o alto carvalho que abriga um banco esquadrado na
madeira crua.
Nele repousava, às vezes, este ou aquele texto dos
grandes pensadores, que um jovem desajeitado procurava decifrar. Quando
os enigmas se acotovelavam e nenhuma saída se anunciava, o caminho do
campo oferecia boa ajuda: silenciosamente acompanha nossos passos pela
sinuosa vereda, através da amplidão da terra agreste.
O pensamento
sempre de novo às voltas com os mesmos textos ou com seus próprios
problemas, retorna à vereda que o caminho estira através da campina. Sob
os pés, ele permanece tão próximo daquele que pensa quanto do camponês
que de madrugada caminha para a ceifa.
Mais freqüente com o correr
dos anos, o carvalho à beira do caminho leva a lembrança aos jogos da
infência e às primeiras escolhas. Quando, às vezes, no coração da
floresta tombava um carvalho sob os golpes do machado, meu pai logo
partia, atravessando a mataria e as clareiras ensolaradas, à procura do
estéreo de madeira destinado à sua oficina. Era lá que trabalhava
solícito e concentrado, os intervalos de sua ocupação junto ao relógio
do campanário e aos sinos, que, uns e outros, mantêm relação própria com
o tempo e a temporalidade.
Os meninos, porém, recortavam seus
navios na casca do carvalho. Equipados de banco para o remador e de
timão, flutuavam os barcos no Mettenbach ou no lago da escola. Nesses
folguedos, as grandes travessias atingiam facilmente seu termo e
facilmente recobravam o porto. A dimensão de seu sonho era protegida por
um halo apenas discernível, pairando sobre todas as coisas. O espaço
aberto era-lhe limitado pelos olhos e pelas mãos da mãe. Tudo se passava
como se sua discreta solicitude velasse sobre todos os seres. Essas
travessias de brinquedo nada podiam saber das expedições em cujo curso
todas as margens ficam para trás. Entrementes, a consistência e o odor
do carvalho começavam a falar, já perceptivelmente, da lentidão e da
constância com que a árvore cresce. O carvalho mesmo assegurava que só
semelhante crescer pode fundar o que dura e frutifica; que crescer
significa: abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na
obscuridade da terra; que tudo que é verdadeiro e autêntico somente
chega à maturidade se o homem for simultaneamente as duas coisas:
disponível ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra
que oculta e produz.
Isto o carvalho repete sempre ao caminho do
campo, que diante dele corre seguro de seu destino. O caminho recolhe
aquilo que tem seu ser em torno dele; e dá a cada um dos que o percorrem
aquilo que é seu. Os mesmos campos, as mesmas encostas da colina
escoltam o caminho em cada estação, próximos dele com proximidade sempre
nova. Quer a cordilheira dos Alpes acima das florestas se esbata no
crepúsculo da tarde, quer de onde o caminho ondeia entre os outeiros a
cotovia da manhã se lance no céu de verão, que o vento leste sopre a
tempestade do lado em que jaz a aldeia natal da mãe, quer o lenhador
carregue, ao cair da noite, seu feixe de gravetos para a lareira, quer o
carro da colheita se arraste em direção ao celeiro oscilando pelos
sulcos do caminho, quer apanhem as crianças as primeiras primaveras na
ourela do prado, quer passeie a neblina ao longo do dia sua sombria
massa sobre o vale, sempre e de todos os lados fala, em torno do caminho
do campo, o apelo do Mesmo.
O Simples guarda o enigma do que
permanece e do que é grande. Visita os homens inesperadamente, mas
carece de longo tempo para crescer e amadurecer. O dom que dispensa está
escondido na inaparência do que é sempre o Mesmo. As coisas que
amadurescem e se demoram em torno do caminho, em sua amplitude e em sua
plenitude dão o mundo. Como diz o velho mestre Eckhart, junto a quem
aprendemos a ler e a viver, é naquilo que sua linguagem não diz que Deus
é verdadeiramente Deus.
Todavia, o apelo do caminho do campo fala
apenas enquanto homens nascidos no ar que os cerca forem capazes de
ouví-lo. São servos de sua origem, não escravos do artifício. Em vão o
homem através de planejamentos procura instaurar uma ordenação no globo
terrestre, se não for disponível ao apelo do caminho do campo. O perigo
ameaça, que o homem de hoje não possa ouvir sua linguagem. Em seu ouvido
retumba o fragor das máquinas, que chega a tomar pela voz de Deus.
Assim o homem se dispersa e se torna errante. Aos desatentos o Simples
parece uniforme. A uniformidade entedia. Os entendiados só vêem
monotonia a seu redor. O Simples desvaneceu-se. Sua força silenciosa
esgotou-se.
O número dos que ainda conhecem o Simples como um bem
que conquistaram, diminui, não há dúvida, rapidamente. Esses poucos,
porém, serão, em toda a parte, os que permanecem. Graças ao tranqüilo
poder do caminho do campo, poderão sobreviver um dia às forças
gigantescas da energia atômica, que o cálculo e a sutileza do homem
engendraram para com ela entravar sua própria obra.
O apelo do
caminho do campo desperta um sentido que ama o espaço livre e que, em
momento oportuno, transfigura a própria aflição na serenidade
derradeira. Esta opõe-se à desordem do trabalho pelo trabalho: procurado
apenas por si, o trabalho promove aquilo que nadifica.
Do caminho
do campo ergue-se, no ar variável com as estações, uma serenidade que
sabe, e cuja face parece muitas vezes melancólica. Esta gaia ciência é
uma sagesa sutil [1]. Ninguém a obtém sem que já a possua. Os que a têm,
receberam-na do caminho do campo. Em sua senda cruzam-se a tormenta do
inverno e o dia da messe, a irrupção turbulenta da primavera e o ocaso
tranqüilo do outono; a alegria da juventude e a sabedoria da maturidade
nela surpreendem-se mutuamente. Tudo porém se insere placidamente numa
única harmonia, cujo eco o caminho do campo em seu silêncio leva de um
para outro lado.
A serenidade que sabe é uma porta abrindo para o
eterno. Seus batentes giram nos gonzos que um hábil ferreiro forjou um
dia com os enigmas da existência.
Das baixas planícies do Ehnried, o
caminho retorna ao Jardim do Castelo. Galgando a última colina, sua
estreita faixa transpõe uma depressão e chega às muralhas da cidade. Uma
vaga luminosidade desce das estrelas e se espraia sobre as coisas.
Atrás do Castelo alteia-se a torre da Igreja de São Martinho.
Vagarosamente, quase hesitantes, soam as badaladas das onze horas,
desfazendo-se no ar noturno. O velho sino, em suas cordas outrora mãos
de menino se aqueciam rudemente, treme sob o martelo das horas, cuja
silhueta jocosa e sombria ninguém esquece.
Após a última batida, o
silêncio ainda mais se aprofunda. Estende-se até aqueles que foram
sacrificados prematuramente em duas guerras mundiais. O Simples torna-se
ainda mais simples. O que é sempre o Mesmo desenraiza e liberta. O
apelo do caminho é agora bem claro. É a alma que fala? Fala o mundo? Ou
fala Deus?
Tudo fala da renúncia que conduz ao Mesmo. A renúncia não
tira. A renúncia dá. Dá a força inesgotável do Simples. O apelo faz-nos
de novo habitar uma distante Origem, onde a terra natal nos é
devolvida.
Blog sobre Biblioteconomia e Ciência da Informação e áreas afins.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
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