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quarta-feira, 13 de junho de 2012
“A cultura da velocidade e das revoluções tecnológicas destruiu as humanidades e concorre para o fim do laço social como a gente conheceu até agora.”
Passamos de uma disciplina para o trabalho ao controle para o consumo. Como você vê isso?
Olgária Matos – Hoje se transforma cada cidadão em consumidor. Então, o que mais conta, é a produção para o consumo, é a produção pela produção e o consumo pelo consumo. Com isso você tem uma relação de alienação entre o homem e a natureza, onde se explora o planeta, mas você nem sabe por que está explorando e produzindo no vazio, porque o que mais importa é que tem que produzir, tem que consumir, porque senão esse capitalismo desmorona. Agora, você vai manter essa maquina em funcionamento durante quanto tempo? Acrescente-se a isso um tipo de trabalhador que está endividado, ele tem cinco, seis cartões de crédito, então ele vive numa dívida permanente. Você mantém as pessoas no consumo, só que elas vivem penduradas nos empréstimos bancários. Na verdade, você tem uma pauperização da sociedade, que se traduz como um bem estar no consumo de péssima qualidade. Produção de massa no Brasil é uma coisa de exclusão pela qualidade das coisas consumidas e pela ideia do gosto também. Tudo é decidido fora daquele que consome.
O que rege o consumo hoje?
Olgária Matos –Quando você vai possuir algo, você não consome porque precisa de determinado produto ou porque ele te agrada. Você consome porque outro consumiu antes. O boato, o comentário que se faz de determinado produto é que cria a necessidade do consumo. Porém isso não corresponde a nenhum grau de realidade, nem de necessidade objetiva, pragmática, nem de uma necessidade estética, moral. É uma imitação que vem pela sociedade de massa, aliada à ideia de diversidade, que é uma indução para o consumo.
O desmantelar do capitalismo é uma realidade? Ele está acontecendo?
Olgária Matos – Vai demorar um pouco, mas é claro que essa nova consciência tem que emergir, tanto que você já tem alguns movimentos incipientes de decrescimento, vendo a sociedade do crescimento no decrescimento. Tem que ir decrescendo progressivamente e ficar mais seletivo. O que é necessário ou desejável que se produza, que se reproduza, que se refaça? Porque na produção pela produção e no consumo pelo consumo, você já está dilapidando o planeta e as pessoas junto. As pessoas não sabem mais o que desejar. O consumo torna indiferente o que é significativo do que é insignificante, isso acaba afetando na vida cotidiana pelas escolhas que não se sabe mais exatamente quais devem ser feitas e quais não.
Quais os impactos diretamente no corpo?
Olgária Matos – São as questões ligadas à cultura contemporânea, que é a cultura do excesso. O capitalismo diz: “consuma, mas desde que em excesso”. Tudo pode, mas desde que em excesso. Obesidade mórbida, esportes radicais, bulimia, anorexia, toda a ideia do excesso, mesmo os jogos olímpicos, o desejo de ultrapassar; o que importa é dar muito de si, não correr melhor. É correr cada vez mais longe. Não é carregar peso, é carregar mais peso: é a cultura do deslimite.
Quais são os maiores desafios encontrados pelo jovem para se inserir no mercado de trabalho, sobretudo no Brasil e nos grandes centros?
Olgária Matos – Primeiro encontrar um trabalho. A sociedade que produz a exclusão inclui subordinadamente o trabalhador mais vulnerável, porque o trabalho é temporário. Ele fica três meses numa situação, ele tem que ser “polivalente”, não é mais formado pra nada porque ele tem que ser adaptável ao mercado e é um mercado tão influente quanto as formas de acumulação do capital hoje, então ele não tem mais identidade própria, nem a identidade profissional, nem a social. Ele fica pouco tempo em um lugar, pra depois ele procurar outro emprego. Isso caso ele encontre outro emprego, porque às vezes ele vai passar um bom período no vazio, tendo que ser o artesão do seu tempo vazio e das suas condições materiais de sobrevivência. Há também a questão da inclusão subordinada ao mercado de trabalho aleatório. Ao mesmo tempo, quando a gente tem um trabalho, esse é completamente sem sentido, é um tipo de trabalho como a educação também. Essa sociedade desmotiva a gente. Seja para o trabalho, seja para o estudo, seja pra qualquer atividade, tudo se equivale, nada mais tem relevo, estamos numa sociedade da falta de curiosidade, imune ao maravilhamento, por isso precisa de droga. Excesso de droga pra se maravilhar, porque o cotidiano ficou quase intolerável.
E as profissões emergentes por conta do impacto das novas tecnologias nas relações de trabalho? Como você vê esse novo mercado?
Olgária Matos – Há novas profissões que atraem o jovem. Profissões, por exemplo, ligadas às nanotecnologias, das tecnologias digitais. Vão se criando novos mercados de trabalho, iniciações profissionais etc, mas, ao mesmo tempo, há profissões que vão surgindo como profissões que eram saberes vernaculares que se perderam. Por exemplo, agora, até a geração dos meus pais, se sabia curar um monte de doenças em casa, hoje ninguém mais sabe fazer nada. Antes você tirava uma mancha em casa, hoje você manda para o tintureiro. São novas formas de profissões que não são profissões, como DJ, que não é nada. DJ é uma coisa pulsional, intuitiva, quer dizer, arranha com o disco, mexe aqui, agora você vai ter uma faculdade, ou uma escola para isso… Agora você tem escola de culinária, antes você aprendia a cozinhar em casa. São várias coisas do cotidiano, saberes vernaculares, que eram transmitidos pela cultura, de geração em geração, e que se perderam completamente, porque esse capitalismo desmemoriza e faz tabula rasa de tudo o que é experiência transmitida. Cria-se a ideologia de que cada geração deve a ela mesma o que ela é. Ela não reconhece o tributo simbólico com o passado. Com isso você perde os saberes que eram do cotidiano, que viram especializados. Não tem nada especializado, é uma bobagem. Pegue por exemplo as danças de salão: quando elas eram espontâneas, como eram bonitas: tinha a imperfeição no passo e tal. Hoje é tudo padronizado, você vê dançando e parecem umas estátuas. Ou seja, o técnico não tem mais alma. O que você tem nessas pseudoformações profissionais são saberes do cotidiano, não são coisas que se aprende na escola. Veja a diferença de uma criança aprendendo a dançar numa roda de samba no cotidiano dela e quando ela vai aprender o samba numa escola. Não tem alma, não tem nada.
Novas profissões passarão a ser mais valorizadas do que outras?
Olgária Matos – Com certeza. Nós temos no mundo contemporâneo uma construção completamente anti-intelectual, no sentido humanista e tradicional da palavra. Todas as profissões ligadas aos laços sociais, ao aprimoramento dos costumes, ao conhecimento de si e de todo o abismo que é a condição humana, além das coisas que você ou aprende no cotidiano ou que precisam ser iniciados em escola com o acompanhamento formal, se perdem. Todos os saberes que precisam de iniciação para se desenvolver, precisam ser ensinados com formalidade, sendo que as coisas do dia a dia se aprende sem precisar de escola. Agora, aqueles saberes que precisam de iniciação, você precisa ir para a escola. Para aprender a ler, por exemplo, precisa de um professor, de uma técnica etc. Para aprender a ler um quadro, você tem que ser iniciado na leitura de um quadro, que é uma escrita, um mundo simbólico. Ora, como você tem hoje uma depreciação da cultura teórica, um mundo montado contra a vida cultural e contra aquele pensamento autônomo, da autoelaboração, isto é, de uma maneira geral contra a idéia da contemplação, quer dizer, contra um tempo em que você precisa ter tempo para parar para pensar e, ainda por cima, com tudo constrangendo à pressa, o resultado é que você tem de parar de pensar. Toda essa cultura que se faz hoje, ela se faz pelo desaparecimento das humanidades. Essa cultura tecnológica, pulsional, instintiva, muito da esperteza e não da inteligência elaborada, ela vem e ela ocupou o vazio deixado pela falência da formação humanista na sociedade. Todas essas práticas, que são técnicas, não são acompanhadas de pensamento, de elaboração, de refinamento. É a aplicação que importa mais. É a razão instrumental no espaço público. Eu quero alguma coisa que está com você, eu já arranco da sua mão, não falo “com licença”, porque atrasa. Numa política de resultados eu quero logo chegar ao meu objetivo. O predomínio dessa cultura técnica, da velocidade, das revoluções tecnológicas, elas destruíram as humanidades, portanto elas estão, no limite, concorrendo para o fim do laço social como a gente conheceu até agora.
E sobre a qualificação e a propalada ausência da mão de obra devidamente qualificada?
Olgária Matos – Não sei dizer se há falta de mão de obra. O que sei dizer é que a idéia de qualificação precisa ser qualificada. O que eu entendo por qualificação de uma mão de obra ou o que eu entendo por qualificação de um ser humano completo? Não é mão de obra. É uma pessoa completa: tem sentimentos, pensamentos, vida intelectual, vida afetiva etc. Se esta formação deste indivíduo está falida, aquilo que forma não está formando nada. Se eu imaginar que no Brasil 80% da educação está na mão das empresas privadas e 20% na mão do estado, e que é uma calamidade tanto no estado quanto no privado, tirando as exceções de sempre, que mão de obra que você vai formar? Você tem no Brasil educação de terceiro grau, na universidade, em que 80% das pessoas não sabem nem ler nem escrever. Terceiro grau, ensino superior: superior a quê? A quê? Daí é claro, pode fazer esses cursos e não qualifica mesmo. Porque a educação não é uma coisa pontual, vem ao longo do tempo. Essa coisa do indivíduo já estar adulto, você dá uma formação, você faz qualquer coisinha pra ele poder se virar no mercado de trabalho. Agora, isso é o contrário de uma formação. Em alguma situação que compete uma decisão um pouco mais complexa, as pessoas já não vão conseguir. A ideia da formação te provê também da possibilidade de iniciativa. Esses trabalhadores que são treinados pra uma coisa só agora e um pouquinho mais pra outra já não conseguem mais juntar uma idéia com a outra. Fora uma decadência na qualidade do serviço, porque com a terceirização não tem mais aquele tempo pra gastar com a formação do trabalhador. Então dá um pouquinho para resolver uma questão pontual. Obviamente o trabalhador não sabe mais tudo sobre eletricidade, ele sabe juntar dois fios, se tiver um terceiro que aparecer e não estava sendo esperado ele faz um curto ali. Esse culto da imediatez, do custo-benefício, do barato, para baratear a educação e a formação científica acaba tendo um custo muito alto para a sociedade, porque você vai ter que importar mão de obra especializada de fato, bem formada, onerando ainda mais o país. Por exemplo, o Brasil não é um país que tem pesquisa em aerodinâmica, ele compra aerodinâmica pronta de fora, você acha que o Brasil não poderia desenvolver? Claro que poderia. Existe uma precarização da vida intelectual do trabalho em território cientifico, claramente.
Pensando no trabalho em sala de aula e o professor em sala de aula. Quais os maiores desafios para o professor enquanto categoria?
Olgária Matos – Depende se é de primeiro grau, porque a universidade é um pouco diferente. Por mais que haja hoje os mesmos problemas que na escola no ensino médio, como indisciplina em sala de aula, violência e tudo, o adulto é muito mais fácil lidar do que a criança e o adolescente. A situação do professor universitário tá muito precarizada por conta da quantidade de exigências que a burocracia faz para o trabalho intelectual, o que inviabiliza a vida inteligente no país. Já no caso dos professores em sala de aula desde a primeira infância até o final da adolescência, é dramático, porque entre outras questões, você tem a crise da autoridade do professor. Como ele não tem mais legitimidade, porque foi feita uma certa compreensão do que é a criança em que você se adapta a criança, se adapta ao adolescente, e se adapta ao mundo do jovem, com isso, ao invés de elevar a criança e o adolescente para valores universais que a educação formal em principio deveria prover, você tem se adaptado e, ao se adaptar, você já tira a autoridade do professor. Enquanto isso a criança vai crescendo no seu narcisismo e achando que ela é o centro do mundo, dos acontecimentos. Pegue, por exemplo, a ideia do “assédio”: tudo vira agressão, ninguém tem mais defesa subjetiva pra nenhum tipo de desconforto. Você vai perdendo as suas defesas, porque tudo vai ter uma lei pra te proteger. Aquelas situações mínimas do cotidiano, como aprender a responder uma agressão verbalmente, ou aprender a se defender verbalmente de uma agressão verbal, ou ter recursos pra aprender a engolir e saber que às vezes vai ter que levar desaforo pra casa, e que faz parte da vida… Ou seja, aceitar que você nunca pode viver nenhum tipo de violência fez com que a ideia de violência tenha ficado indefinida: tudo cabe numa ideia de violência. O professor em sala de aula tem que tomar cuidado com coisas que antes ele não tinha. Antes ele tinha de estar em sala de aula pra instruir e formar, agora ele tem que ser psicólogo, assistente social, médico, bedel e ai não consegue ensinar porque não tem tempo; afinal, ele tem que ser vários profissionais ao mesmo tempo.
E na universidade?
Olgária Matos – A universidade de pesquisa tem que necessariamente ter um tempo livre para leitura, renovação das pesquisas, preparação de aulas, preparação de livros etc. Entre essas funções existe a sala de aula, a atividade docente. Só que hoje você tem docência, pesquisa, extensão, assistência social, projetos sociais, ou seja, a universidade está cumprindo funções que seriam do Estado. Desde assistência social até produção de eventos culturais, que fariam parte do ministério da Cultura ou da secretaria da Cultura ou uma secretaria de Educação. A universidade está na extensão tendo que resolver isso. Ela está abandonando sua função de pesquisa e se adaptando a carência social, ela também está se descaracterizando enquanto instituição. Mas o professor universitário está menos fatalizado do que o da escola de primeiro e segundo graus, porque na escola há um tipo de confusão com relação ao que é um currículo desejável. Cada um faz o que quer e ninguém sabe o que dá. A ideia de formação supõe pelo menos continuidade. Você repete a mesma coisa durante muito tempo até mudar um pouco, porque ai você cria uma cultura que prepare para as adequações. Se tem currículo obrigatório, se tem algumas indicações básicas, cada lugar se adapta e interpreta da sua maneira. Do contrário vai-se criando uma desigualdade, não apenas pelo poder aquisitivo, mas também pelo tipo de repertório cultural que se transmite, pela flexibilização do currículo em nome da adaptação à vida social. Se parte do pressuposto que a evasão escolar e o fracasso vem da escola não estar adaptada à criança, mas a crise vem porque ela está se adaptando à criança, quando ela deveria erguer a criança, tirá-la do meio social de onde ela vem pra mostrar um outro, seja um meio burguês, seja proletário que nem existe mais, seja o mundo dos mais pobres. Está se criando uma sociedade extremamente desigual pela exclusão do repertório cultural.
Como você vê o impacto do professor mal preparado, ao chegar na sala de aula e lidar com esses conflitos?
Olgária Matos – São dois problemas de origem. Um é a crise da autoridade do professor mas, junto com essa crise, talvez a mais grave, é a má formação do professor. O governo acha que formando professor e mobilizando todas as universidades, sobretudo as públicas, para formar licenciado, isso vai resolver o problema. O problema é que ele tá formando péssimos professores porque o complicado é saber o que é uma boa formação. Uma boa formação exige que se saiba que tem que decorar definições, tem que decorar sinônimo de palavras etc. Existe uma série de circunstâncias para acumular conteúdo, para depois poder inovar, que no Brasil não estão dadas. Por exemplo, a fala de que “isso de memória não é importante, ficar decorando tabuada não é importante”, como se fosse uma coisa menor decorar tabuada, ou decorar um poema. Até a minha geração se decoravam poemas, mas por que se decorava poema? Primeiro porquê ele tinha rima, o que facilitava a memorização, e outra: quando decora você aumenta o seu vocabulário. Por exemplo, em certos países europeus a criança não pode usar gíria em sala de aula, tem que usar um sinônimo da língua dele, nacional. Depois, no recreio, onde ela quiser, ela fala gíria, mas lá na escola é lugar de adquirir competências intelectuais mais amplas, cognitivas. Ou quando se diz que ao diminuir a complexidade dos problemas você vai simplificando, no sentido de não forçar a criança porque ela se estressa. Não se trata de estressar. Ou quando você diz, por exemplo, que falar errado é o certo, porque o pressuposto dessa linguística que opera no Brasil hoje é que a gramática é arbitraria. A gramática nasce da língua falada. Portanto ela não é arbitraria. Ela é necessária, porque no coloquial todo mundo se entende; você pode errar mas, se você está na presença dos falantes, você sabe bem o que está dizendo. No caso da língua escrita, por que existe pontuação, acentuação, virgulação, regras de flexão verbal? Porque na ausência dos falantes é preciso saber quem está falando, quem está praticando a ação e quem sofre a ação. Quando se diz que o errado é o certo, o que significa isso? Significa que a assimilação das regras gramaticais são decoreba. Assimilar regra gramatical e conseguir falar corretamente significa uma operação intelectual de refinamento. No Brasil não se usa mais o subjuntivo, as pessoas não sabem mais usar os tempos verbais. Ocorre uma espécie de atrofia do pensamento e, mais ainda, uma questão de genocídio cultural em nome de que o pobre fale errado, e aí ele vai ser vitima de preconceito linguístico, vai ser vitima de preconceito econômico e social. Está se produzindo a exclusão do pobre nesse país, em nome da igualdade. Os pobres chegaram à universidade numa época em que a educação não quer mais dizer nada nesse país. Educação nesse sentido, da áurea da cultura, dos prazeres que você descobre a partir de uma iniciação.
O acordo ortográfico concorre pra essa…
Olgária Matos – Ah, total. Veja só, ninguém é contra. A língua é viva. E ela opera em dois pólos conflitantes e que fazem a vida de uma língua, que é o seu pólo de normatização e o seu pólo de anomia. Tem que ter os dois. Se não tiver os dois, a língua morre. No Brasil é só a anomia que conta. Então a anomia leva a uma desagregação completa. Tanto que quando você tem uma língua, que tem uma tradição literária forte, ela resiste muito aos ataques de uma língua estrangeira que, quando vem, vem para enriquecer a língua nacional. No caso do Brasil a língua estrangeira está entrando e desarticulando a nossa sintaxe.
Por exemplo?
Olgária Matos – Quando começa a se dizer “eu vou estar fazendo tal coisa” isso é o gerúndio do gerúndio. O nosso é gerúndio particípio presente, lá eles usam o presente continuo, nós não temos nada a ver com isso. Não tínhamos, mas como a gente não tem formação literária da grande literatura que resiste a invasão da língua estrangeira, você vai desarticulando.
Como as novas tecnologias de comunicação impactam a relação do professor com os alunos em sala de aula?
Olgária Matos – Em sala de aula é uma catástrofe. No caso da disponibilização para pesquisa é fantástico, mas é que não tem critérios para poder usar isso. Tanto a infância como a adolescência precisam de orientação. O que a criança vai fazer com o computador? Ela vai olhar site pornô, vai usar pra qualquer coisa, porque aquilo é lúdico, é entretenimento. Pra escola teria que ser como pesquisa. A democratização do conhecimento é impressionante pelas novas tecnologias, além da facilitação para as pesquisas, agora, se não tiver boa orientação o que eles fazem? Corta e cola, nem leem, eles não tem curiosidade de ler, nem paciência. O impacto na escola está sendo catastrófico, na maior parte dos casos, porque não é acompanhado de critérios de seleção e de leitura, de nada. Você também não pode transformar esses instrumentos de apoio a educação no conteúdo da educação. O problema é que está virando conteúdo. Por exemplo, os estudantes chegam e citam um filósofo que se está estudando. O professor pergunta “de que livro você tirou”, ele responde “do blog do professor tal”, “mas quem escreveu o texto?”. Ele nem tinha visto quem escreveu o texto, daí ele vai lá e consulta: “ah sim, foi Platão”… É um tipo de descriterialização onde uma coisa que é benéfica, do ponto de vista da disponibilização e, portanto, da democratização, do acesso ao conhecimento, não está sendo acompanhado do critério capaz de fazer isso ser uma coisa eficaz. Acho que ainda estamos nesse ponto.
Qual é o critério que tornaria eficaz?
Olgária Matos – Teria que ter uma orientação dos professores, porque a criança vai entrar em qualquer site, mas é preciso orientar: “Você só vai entrar nesse e só irá ver tal coisa”. Mesmo fazendo isso, não adianta porque eles vão fazer outra. Eles nem perguntam mais o que é pra fazer, porque eles não têm mais essa curiosidade, eles não percebem a importância disso. Eles acham que é mania de professor chato.
Passamos por um empobrecimento da educação e das relações sociais?
Olgária Matos – Veio chegando, mas acho que é uma coisa mais geral. No Brasil é mais evidente por conta de nunca ter tido uma educação de qualidade para todos mesmo, então você percebe a degradação da qualidade de ensino muito claramente, principalmente a partir do anos 70, só foi piorando. Tirou o grego, o latim, o inglês e o francês, tirou literaturas, transformou língua e literatura brasileira e portuguesa em expressão literária, ou seja, qualquer coisa escrita é literatura, o que acabou com a ideia da alta e média literatura, tudo se equivale, o que não é verdade. Em uma ideia de formação não é que tudo se equivale. Depois que já se está formado pode até valer, pode-se tanto ler qualquer literatura média, ruim ou boa, porque dai você tem critérios pra transformar isso em criatividade. Agora, criança não tem como discernir. Ela vai indiferenciar uma coisa da outra e tudo vai ser chato, tudo é igualmente chato para ler. A leitura precisa de uma motivação, precisa ter professor motivado para ler junto com aluno, interpretando os personagens de um grande romance pra mostrar as emoções e o saber que se forma ali. Ser professor é vocação. Uma das falhas da educação é considerar que ser professor é uma profissão qualquer. Não é uma profissão qualquer, não é qualquer um que pode ensinar em sala de aula, porque depende da educação. Se não tiver vocação para a sala de aula, você não consegue transmitir. O professor que é professor dá um jeito de transmitir para a sala de aula o que precisa. Ele não tem regras, ele se vira pra ensinar, porque pra cada criança é de um jeito, ele tem que dar um exemplo diferente. É vocação, não tem jeito. Virou profissão, acabou. Por isso que a educação está falida e todo mundo acha que a culpa é do professor. A culpa é porque ele não está motivado, ele não sabe ser professor porque não quer ser, e não tem porque querer. Com o salário que recebe, com o desprezo que os Estados têm pelo professor, e o desprezo que a sociedade tem pelo professor, que é uma das profissões mais dignas, porque ela forma a vida das pessoas a longo prazo, portanto é a profissão mais nobre que a sociedade já inventou, é atualmente a mais desprestigiada. E o que se quer? O professor é humilhado o tempo inteiro! Como você quer que funcione a educação?
Como resistir?
Olgária Matos – A dificuldade é que no Brasil a tal de democratização acabou significando que todo mundo pode opinar sobre tudo. Por exemplo, nas escolas você tem conselhos de pais e mestres, e é em conjunto que os pais decidem com os professores e com os organizadores da escola o que se quer ser ensinado. Como é que pode ter educação assim? Você tem que ter uma idéia de formação nacional, de nacionalidade. O que precisa para que se seja uma nação, que todos tenham referências, valores comuns prezados e compartilhados? É isso o que tem que ser transmitido na escola, como um núcleo duro. Depois, claro, adaptação nas regiões e tal. Mas no Brasil não: cada um faz o que quer. Como é que você pode ter [falas do tipo] ”ah, mas por que é que eu vou estudar Drummond na Amazônia?”. Ué, porque vai estudar o Drummond na Amazônia! Porque índio pode ter o direito de saber que tem o Drummond e pode ter o direito de não gostar também. Mas ele tem que saber que existe – desde que ele esteja na escola. Agora, se ele está no seu mundo, na sua sociedade, é outra coisa. Mas quando você já está no mundo urbano, você não pode produzir a exclusão de quem já tá nele. Você tem que prover todos com o repertório comum. E aí a pessoa escolhe, “gostei”, “não gostei” “quero”, “não quero”. Ele precisa saber que isso existe, senão a educação volta a ser segredo de uma elite. Dizem: “Ah, mas pra que que interessa saber inglês e francês?” Por que que o pobre não pode saber inglês e francês? Por quê? “Ah, é um luxo, ah eu não quero ter luxo”. Porque as coisas do prazer e do espírito, que são um fim em si mesmo, e que são meio pra nada, não valem mais nessa sociedade. Tá tudo um pouco desfeito como valores, ficou só o valor material, a idéia do sucesso material como única forma de realização pessoal – e como esse já quase não existe mais, então o que você vai ter? Você produz na sociedade a idéia do fracasso. Como se o fracasso fosse individual. Ou seja, cada um que fracassou, fracassou porque ele não teve condições de se inserir no mundo. Tudo é produzido para não estar inserido. A idéia de fracasso, hoje, ela vem assim: como cada um é empresário de si mesmo, então se você fracassou, você deve a você o seu fracasso. A empresa tava ótima, a organização que você trabalha é ótima, a concorrência foi ótima, só que você foi excluído. Por quê? Porque você é um incompetente social. Não é incompetente. É porque se tem um tipo de capitalismo que TODO mundo é incompetente. O fato de você ser escolhido numa grande empresa é totalmente arbitrário. Não é nem pelas suas qualidades, nem pela sua formação intelectual, nem pelo seu desempenho, nem nada, é o domínio do arbítrio. Você não sabe mais quais as regras objetivas que estão selecionando os concorrentes. Então como é que você quer que isso forme a sociedade? Forma sim a ideologia de que se você não foi contratado é porque o problema era seu. Aí vai pro coach! Aí tá uma bela profissão, né? Ciências cognitivas, coach, essas coisas todas.
Promove-se a exclusão?
Olgária Matos – Exclusão dos mais pobres. Eu acho. Acho mesmo. Então tem que simplificar o problema de matemática pra ele, e as regras de acentuação porque, em princípio, os pobres não conseguem assimilar. Então pra quê, né, se pra falar e pra se entender não precisa daquelas regras? Você tira competências cognitivas das crianças, em vez de perguntar por que ela não tá conseguindo assimilar e reverter isso… daí vem “ah, mas a família fala errado, então ela também fala.” Isso é mentira. Sabe por quê? Na minha geração, na minha rua, só tinha imigrantes. Espanhóis, portugueses, analfabetos, pedreiros, lavadeiras que tinham chegado de Portugal. Todo mundo ia pra escola e eu me lembro dos pais falando: “Ah, eu to tão orgulhosa da minha filha, ela está me corrigindo o português!” Cê você dependesse dos pais para estudar, não tinha educação, porque os nossos pais não tinham condições de nos ensinar rigorosamente nada. Porque eles não sabiam, eles não tinham tido educação formal. Porque não tinha naquele tempo, só quem era muito rico, ou então quem estava em escola pública, quando ela foi boa, no começo. Agora, a idéia, hoje, é assim: a família quer que a escola eduque e a escola quer que a família ensine. Então não funciona nada. Até a minha geração a educação se baseava na escola, não na família, porque a família não tinha como ensinar nada. Esse negócio de dizer, “ah era assim porque o seu meio social era”, bom, se a criança automatiza o correto, se o professor em sala de aula fica corrigindo até acertar, ela vai acertar. Mas é que hoje “pode” errar. O professor não quer ter muito trabalho de ficar corrigindo, [ironiza] chateia a criança. Traumatiza, você não pode corrigir com caneta vermelha senão traumatiza. Caneta vermelha é ótima, você vê em destaque claramente onde você errou. Ai na hora de fazer exercício, de fazer o treino, você já sabe onde que é o seu ponto fraco.
Esse excesso de mimo da infância está ligado a uma infantilização do mundo adulto também?
Olgária Matos – Claro, ô! Os pais têm a mesma idade mental das crianças, não tenho dúvida. Você tem uma infantilização de tudo. Universidade virou coisa de criança: precisa fazer chamada, indisciplina em sala de aula, o professor é avaliado pelo aluno, a instituição faz acompanhamento docente, o professor está sempre em formação, nunca é professor, nenhuma profissão mais é professor, você tem que ficar formando, em formação continuada… Como formação continuada? Então você foi muito mal formado, você nunca fica adulto!?
E a educação continuada para toda a vida?
Olgária Matos – Não quer dizer nada isso aí. Quer dizer a má educação pra sempre. É tão mal formado que nunca nada vai resolver. Quando você está bem formado, você está formado. Você formou engenheiro, e com as revoluções da engenharia você vai aprendendo as outras coisas, vai adequando, como sempre foi na medicina, na filosofia, em todo campo. Quando já tá formado, a partir dali você já é autodidata.
Perdeu-se o parâmetro de legitimação do que é a formação?
Olgária Matos – Perdeu, completamente. Acho que você tocou no ponto. Não é nem crise de método, nem crise de objeto, nada. É crise de legitimidade. Ninguém mais sabe o papel da educação na sociedade. Como ele ficou precarizado, não tem mais valor, então fica uma crise de legitimidade. É o que permite que cada um possa fazer o que quer, em nome da democracia. Ocorre que a educação política supõe uma boa formação escolar. Não ideológica, porque a educação nos anos de formação tinha um sentido de dar um repertório mínimo, sem hiperinterpretações. Pra depois você poder reabrir a história e recontar, afinal a cada hora muda um pouco a interpretação. Tudo está ficando muito ideológico: é a idéia de simplificar, o que tranqüiliza a pessoa. Quando você diz é “A” e “B” e “A” está contra “B”, o mundo fica mais fácil de interpretar. Agora aquelas nuances, que a educação deveria formar, se desfazem. Não sei se a educação não vai mais ter um lugar na sociedade como ela teve, ou se daqui a pouco vamos ter que fazer uma bela de uma revolução. Mas isso que você falou é fundamental, o professor já tá precarizado, ele nem sabe o que ele não sabe. Ou então ele é de uma geração que acha que tudo cansa a criança.
O mundo está mais complexo?
Olgária Matos – O mundo está mais complexo, é verdade; mas a educação está cada vez mais ideológica. Estamos nos preparando menos para entender a complexidade. O ideológico age por estereótipo, não por reflexão dos tipos, ou por tentar reconhecer a complexidade. O que eu acho que a educação tem de fazer? Ela tem que introduzir o complexo naquilo que parece simples e simplificar o que parece complexo. Ela tem que problematizar tudo! Mas ai não, tudo está simplificado com uma idéia feita, pronta. E a criança fica repetindo aquilo. Dou sempre um exemplo para meus alunos: a minha geração era de uma educação humanista, de formação mais fundada na literatura. Quando a gente ia aprender análise gramatical, tínhamos, por exemplo, um exercício para encontrar a frase principal. Mas não eram frases quaisquer. Eram tiradas do Göethe, do Camilo Castelo Branco… E a gente decorava, porque fica como um ditado popular. Tinha uma, por exemplo, que era assim: “tu que és jovem, e ris, e não sabes da mágoa da vida, tem cuidado”. Quer dizer, já achava a oração principal e já sabia que viver não era fácil. Cê já aprendia tudo junto ali. Não era uma frase qualquer, era uma frase pra você parar pra pensar. Era tudo assim. Até os exercícios de biologia eram assim!
Era um pensamento mais interligado então?
Olgária Matos – Mais interligado porque o eixo era a formação humanística, quer dizer, todos os saberes deveriam propiciar a formação do caráter e a formação pra vida. Então você tinha tanto que profissionalizar quanto ensinar a viver. Porque o que é uma educação, independente dela ser formal? Uma educação é muito simples: é te ensinar a viver. É isso. Porque viver é difícil. Pra criancinha porque sofre risco de vida, depois você tem que se adaptar aos sofrimentos que a vida traz, as perdas que você vai ter, as frustrações e é isso a educação. Perdeu-se essa idéia. Hoje é saber um pouquinho de coisa para se dar bem na vida.
É esta a educação majoritariamente consagrada hoje entre jovens e adultos?
Olgária Matos – Hoje é tudo educação de esperto, é pra ser espertinho. Não tem mais prazer no conhecimento, não tem mais a surpresa. Então essa coisa de você ler um romance, ler uma frase e você fica parada duas horas, se perguntando “como é que ele escreveu isso, meu deus, o mundo virou do avesso”, não tem mais, né? Talvez o que ainda guarde um pouco isso é o cinema. O cinema ainda tem uma coisa de maravilhamento. Mas não essas coisas que a gente vê na televisão, e em 90% dos filmes. Me lembro de uma secretária da Cultura lá de Salvador, há uns 4 anos, que fez um trabalho com meninos de rua. Eles não querem sair da rua mesmo, mas cê sabe como ela conseguiu tirar eles da rua pra eles aprenderem a ler e a escrever? Eles não queriam ir, ela pôs na praça os filmes do Chaplin. Tinha um silêncio absoluto. Daí depois disso é que eles começaram a ir: porque tinha o filme do Chaplin. E porque ia ter outro filme, aí ela conseguiu muitas crianças. De umas 12 crianças, acho que umas cinco saíram da rua, foram reencaminhadas pras famílias e tal. É que dá trabalho, né? Cê faz errado no começo, depois dá mais trabalho para resolver.
Como você avalia a educação a distância?
Olgária Matos – Num país como o Brasil, em lugares que tem mata, de absoluta dificuldade de acesso, então é claro que é totalmente desejável, não resta dúvida. Agora, eu acho que essa educação a distância teria que ter os pólos e trazer esses estudantes dos lugares mais recuados para os centros urbanos de onde são emitidas as informações. Porque senão aquilo chega lá e não faz sentido no mundo dele. Ele tem que entender o mundo da onde aquilo é gerado e da onde vem. Então acho que periodicamente tinha que gastar, porque educação é cara mesmo e não é feita pra dar lucro, ela feita pra tratar da alma das pessoas e tem que trazer as pessoas pra lá, pro aluno poder viver aquele meio onde aquelas coisas começam a fazer sentido e, pra quando ele voltar, aquilo ser enriquecido com a experiência dele de origem, né? Não sou contra a idéia de educação a distância, o que eu sou contra é o que está acontecendo nos grandes centros urbanos: ela acaba sendo usada para substituir os gastos de uma educação formal, demorada e tal. Dai, pra aqueles muito mal formados você dá um pouquinho a distância, um pouquinho com presença, pra fingir que deu formação. Ai dá o diploma e pronto, continua a mesma porcaria. E gastou muito do dinheiro com isso!
Como você vê a manifestação dos Chilenos por melhor educação?
Olgária Matos – O Chile é um país respeitável. Os estudantes saíram lá pela primeira vez às ruas porque eles queriam mudar, flexibilizar o currículo escolar das escolas públicas. Diziam: “Não, vai ficar igualzinho a escola dos ricos”. Que é o mínimo de inclusão social que você pode reivindicar, é o mínimo do direito. Você aprender a mesma coisa, já que no resto você é excluído. É a única chance que você tem, e olha lá, hen! Agora até isso querem tirar deles!? Ah, tenha a santa paciência!
Nacionalidade e pertencimento. De que forma tais entendimentos ainda participam das atitudes culturais?
Olgária Matos – Todo mundo, de norte a sul do país, deveria saber um poema daqui e, quando você está fora do seu país, te dá o seu país, te dá o seu pertencimento simbólico. Ou seja, compartilhar um repertório comum de valores, que são do país, do lugar, das suas tradições, da sua cultura, mas que ao mesmo tempo estão obviamente em contanto com o universal, para você não ficar fechado no teu pequeno burgo. Porque quando você fica fechado no seu pequeno mundo, você acha que é melhor que todo mundo… Tem que formar a criança para a alteridade, para ela poder se relacionar com o diferente. Não pode ficar “só consigo falar com quem é igualzinho a mim”. O Brasil tem uma coisa peculiar: com toda essa confusão mental que existe no país, acho que o povo é tão legal, que o dia que a gente sair dessa barbárie que a gente tá, o Brasil só tem a ensinar pro mundo. Todo mundo fica falando mal do Gilberto Freyre… não que os outros povos não sejam misturados, todo mundo é muito misturado, mas o Brasil se misturou sem precisar de ideologia. Não foi política de Estado. As pessoas se misturaram porque se misturaram e acabou! O povo Brasileiro é muito tolerante, e não estou falando aqui dos excessos da mídia. Fala-se que o povo brasileiro como povo é violento, mas a criminalidade é violenta em qualquer lugar do mundo. No Brasil ela é muito violenta, claro, o nível de civilidade é zero, mas isso aí não explica o país. O que explica o país é que as pessoas são boas. Você vê gente paupérrima, que vê criança no lixo, vai lá, pega e fica feliz de ter mais uma criança pra criar. Qual lugar do mundo que tem isso!? Não existe. As pessoas são boas aqui. Tem que ter muita esperança na sociedade brasileira, não no governo, nada disso. É claro que a gente tem que aprimorar as instituições. Existe alguma coisa de práticas no Brasil que estão talvez acabando com o mundo urbano, porque o mundo urbano tá muito violento – essa coisa de mundo pós-industrial, em que é tudo muito prático, muito mal educado, está acabando com as tradições de hospitalidade, de generosidade, receptividade que o brasileiro tem, e tem mesmo, não foi política de Estado: o Brasil é assim. Sempre foi. Não sei se é porque tem uma costa imensa, aí chega todo mundo, vai entrando, vai ficando… É um grande útero o Brasil. As pessoas vão chegando e vão ficando. E é essa a coisa bacana que o Brasil tem. Na minha geração tinha muito imigrante, mas a primeira coisa que se fazia – e não sei isso é bom ou não – era esquecer a tua língua de origem. Meus avós eram de origem síria, libanesa, palestina. Os meus vizinhos eram portugueses, tinham os espanhóis, japoneses, judeus da Hungria… Primeira coisa que fazia era ir pra escola onde estavam todos os brasileiros. Você começa a fazer feijão com arroz, fala português em casa, minha vó misturava português com árabe, no final ela falava mais português errado do que árabe, errando o árabe… Quer dizer, você já chega querendo ficar aqui. É diferente dos outros que vão e ficam sonhando em voltar para o seu país. Aqui não, os imigrantes chegaram e sabiam que iam ficar. Então já se adaptavam. E daí todo mundo se misturou. No caso de São Paulo: os italianos, os espanhóis, os árabes, os portugueses, os coreanos agora… quer dizer, você tem uma coisa de tolerância grande na sociedade brasileira. Que não sei se é por causa da tradição tribal, que é mais tolerante, eu não sei…
E de onde vem a permissividade que hoje se vive?
Olgária Matos – Vem das leis brasileiras e da mídia, que destroem qualquer tipo de civilidade. Você produz um tipo de pedofilia na televisão, né? Você põe a criancinha requebrando como um adulto e depois reclama dos homens serem tarados. Ah, tenha a santa paciência! Você põe a criancinha pra cantar pintando os olhos, fazendo trejeito de mulher adulta… Isso aí você tem que pôr na prisão o pai e a mãe que permitiu e por uma educação pra essa criança, tirar ela do trauma… O que produz a permissividade são as instituições que não funcionam, é a mídia, que a mídia no Brasil realmente induz comportamentos, o fato de que a gente tem pouca formação formal, então a televisão acaba ditando comportamentos, vira uma situação gravíssima. Desde a sexualidade precoce tanto do menino quanto da menina, até formas de violência. No caso da mídia no Brasil ela é realmente perigosa, sobretudo a televisão. É grave. Quando você tem uma cultura como a japonesa, que é muito cheia de cerimônia, de regras, e você tem também aqueles jogos violentíssimos, você tem o poder de simbolização. Agora no Brasil, quando você não tem uma educação, que contém o ato, e só passa isso na televisão, eu duvido que isso não tenha uma relação com a violência, eu duvido. As pessoas não sabem sequer diferenciar o que é uma lei socializadora de censura, tudo parece que é repressão.
Onde estão as origens da confusão entre uma coisa e outra?
Olgária Matos – Podem ser várias, mas acho que uma delas são as formas do capitalismo contemporâneo, que pro consumo, vale tudo. É da natureza do capital não ter limite: ele precisa se acumular, então todo lugar em que ele puder entrar pra criar lucro, ele vai entrar. As leis eram pra regrar o capitalismo. O direito, a ideia de lei, era uma barreira contra a barbárie do capital, porque é da sua natureza não reconhecer limite pra nada. Agora, a partir do momento que o mercado virou o centro de organização da vida social, o deslimite virou modo de vida. Então como é que você quer que haja ética, se a ética supõe o conflito e a interdição? Pra ter vida ética, você tem que ter transgressão e proibição. Quando tudo é permitido, como é que vai ter transgressão? Não tem mais. Acho que muito tem a ver com o capitalismo contemporâneo, a forma selvagem de acumulação do capital hoje, que é totalmente aleatória.
A fadiga do corpo é um limite?
Olgária Matos – Não sei se ela é um limite ou se a saída para essa fadiga do corpo não tá sendo o aumento da criminalidade ou o aumento do consumo de drogas, que são duas maneiras de estupidificar, de não ter pensamento. O mal-estar se traduz pelo ato. Você não tem mais pensamento, passa direto ao ato. Ou você se droga – não é aquele papo, “antes a droga nutria a consciência etc”, mas quando ela vira “tô me sentido mal”, “tô com tédio”: droga. “Tô com angustia”: droga. Não tem o que fazer: droga. A droga é pra parar de pensar. O aumento das drogas hoje é proporcional a pobreza do mundo interno das pessoas. Isso por um lado é fadiga de existir. Cansaço de existir. E aí pode ser o cansaço do corpo – e o que é o corpo hoje? O corpo é um corpo em perpétuo movimento. É um corpo triste, ele se movimenta o tempo inteiro. Um vazio espiritual imenso. Mas a gente sempre tem resistência a isso. Tem quem esteja fazendo outra coisa. São poucos. São os que estão inventando a vida. Não estão esperando que a mídia diga o que é para eles fazerem. São as pessoas que tem se salvado por conta própria. Porque eles conseguem não ficar com o corpo, com o espírito cansado.
Isso é possível?
Olgária Matos – Claro que é. Senão não tinha mais o que fazer. A vida não pára, e isso é que é legal. A vida inteligente continua. Apesar de todos os esforços pra destruir a inteligência, ela continua. Esses movimentos como o Greepeace, ou o dos palestinos – não digo em todo o oriente médio, mas os que foram pra rua pra exigir igualdade e recusaram as bandeiras de partidos políticos. Os palestinos recusaram, disseram: “não senhor, a bandeira é palestina, isso não é um movimento partidário. Ninguém vai ideologizar e usar nossa luta, nós vamos ter eco no estado palestino. Então a bandeira é da palestina, não é de grupo político”. Quando você vai ver, é claro que tem coisa acontecendo aí, e são bem legais.
O quanto que a economia solidária, em torno das pessoas que não conseguem inserção no mercado como ele tá hoje, já foi também cooptada?
Olgária Matos – É claro que essas iniciativas, em princípio, são todas bem vindas. Se elas podem minorar o sofrimento das pessoas, tudo bem, óbvio. Agora, eu acho que pra inclusão, mesmo, teria que ser outro tipo de igualdade. Teria que ser desde o começo. Porque aí, por mais que se diga que a sociedade do mérito não era suficientemente includente, e é verdade, mas você tem que garantir o mínimo de igualdade de início e aí um pouco do esforço pessoal, um pouco do acaso, tudo isso entra na vida das pessoas, pra criar uma sociedade realmente da solidariedade. Ou seja, que o menos apto também tenha direito. Por que o menos apto não pode estar numa fábrica que é toda anfetamínica? Por que ele não pode ter um ritmo um pouco menor do que os outros? Ninguém mais consegue lidar com as diferenças. Porque a empresa virou uma coisa louca: você tem que produzir tanto por segundo, senão acabou! Mas e o outro que não produz tão rápido, e daí!? É como a criança que vai fazer a conta, mas ela demora um pouco mais. Por que eu tenho que ter o vestibular que exclui pela rapidez, por quê? Se desse uns 15 minutos a mais ele resolveria o problema, por que tem que ser rápido? Sabe, esse fetiche da rapidez, pra quê? Isso acaba chegando lá no trabalho. Aquele que não está no mesmo ritmo que é suposto ótimo tá excluído, não é justo isso. Por que eu não posso conviver? Só porque eu sou um pouco mais lento? É a exclusão do menos apto, um darwinismo social. Agora, já que está assim, o mínimo que a gente pode dizer é: “que bom”. Não sei como funciona, mas deve ser como uma empresa mesmo, porque depois de um tempo isso aí vira carreira, pessoas entram pra ganhar dinheiro… mas a motivação, se for capaz de pelo menos abrir uma vida para as pessoas poderem ver outras coisas… como medida de emergência, não sou contrária, agora a ideia de inclusão é outra, tem que pensar outras formas. Primeiro desacelerar esse capitalismo louco: as pessoas não são iguais nem tem que ser. Cada um dá o que pode dar e acabou. O que vale não é o que dá no trabalho, mas o que você dá na sua vida com as pessoas que estão próximas, por perto, na vida social. O mundo do trabalho é um mundo contingente: um dia você está lá, um dia não tá. Não dá pra fazer do trabalho um fim em si. Se você gosta do que você faz é diferente. Tudo o que você faz sem esforço é tempo livre. Se você fizer o seu trabalho sem esforço, sem se cansar, é lazer. O problema é que 99% da humanidade faz contrariada. Não pode ser um fim em si mesmo. Tanto faz se ela é mais rápida ou menos rápida. Sabe, pra apertar botão, que me interessa? Isso aí vai me fazer um ser humano melhor? Não vai. Então por que não pode estar na mesma fábrica? O mais rápido se organiza e fica num tal lugar, o menos rápido fica numa função que é mais apropriada pra ele, qual o problema? Aí tem o simétrico oposto: você tem que colocar a criança ou o adulto com retardo pra ficar igual, mas aí não é igual mesmo! Estou falando dos iguais. Tudo bem você incluir pro trabalho, coisas que cada um possa fazer, tudo bem; agora, na escola, na sala de aula, como é que você pode por um professor pra ensinar crianças com problemas psiquiátricos, ou psicológicos e criança que tem uma norma de aprendizado? Você atrapalha todo mundo e não serve nem a um nem a outro. Essa inclusão tem que existir, mas sabe aonde? Na hora do recreio. Não na hora das competências. Você tem os níveis de sociabilidade e os que não são. São as especialidades. Mas pro trabalho, eu acho que… “sociedade solidária”, “trabalho solidário”… Toda a sociedade devia ser solidária. Não são âmbitos setorizados, “aqui sou solidário”. Mas já que tá assim, ainda pelo menos socorre um pouco os mais vulneráveis, os que são menos protegidos. Mas assim mesmo, é dureza! Lembro que na escola que eu estudava, tinha muita criança pobre, sempre estudei com bolsa, todo mundo que não podia pagar. Mas nunca passou na cabeça de ninguém chamar o Bush pra ver os pobres como eles são bonitinhos… é humilhante, é ridículo.
A pobreza é mais um filão no cardápio das relações?
Olgária Matos – Total. Virou indústria da pobreza. Agora que os pobres não saem mesmo da pobreza! No meu tempo você não sabia nem o nome de quem ajudava, era “Sociedade Anônima”, você não devia favor a ninguém. É outra civilização. O mundo foi ficando mais duro, o poder do dinheiro foi ficando muito mais explícito. Hoje você tem uma cultura novo rico insuportável. Você sabe o preço de tudo e não sabe o valor das coisas. Um mundo bobo, né? A única maneira de sair disso seria se as pessoas tivessem a sorte de conviver com outras que não dão valor só pra isso. Ou então acabam entrando, é tão triturador isso. Some-se a isso uma sociedade inteira que te faz injunções à visibilidade. Tudo tem que ser mostrado, tudo tem que ser falado, você não tem mais o sentimento do pudor, tudo pode ser mostrado, falado, passou na cabeça e se fala. Uma sociedade sem contenção nenhuma, sem o mínimo de maneira, e aí fica essa bobagem toda, que não quer dizer nada, você fica se expondo. No limite são esses assassinos em série que se põem na televisão, filmam o crime e depois se suicidam. Tudo para se expor. Você quer ser visto pelo outro, mas você não quer ver o outro. É um tipo de narcisismo que se está gerando, e com uma atividade cerebral próxima a zero. Dá numa superexposição, que não dá nada, numa sociedade que não faz mais diferença das coisas. Acho que é uma narcicização da sociedade, todo mundo acha que é artista e pode ser artista, que é tudo espontâneo, é tudo autêntico, como se quanto menos educação, mais autêntico. Até a minha geração só se punha a público algo que você tinha muita certeza que aquilo valeria a pena, faria sentido pra mais alguém além de você. Não sei se isso que se vive hoje é democratizante ou se é imbecilizante. Você perde o critério do que vale a pena por a público e o que não vale. Acho que vem dessa indiferenciação entre o que é público e o que é privado. Mesmo a linguagem no Brasil: você teria que ter a educação pra dizer a diferença de quando se usa uma forma de linguagem elaborada e quando ela é informal. No Brasil só vale o informal. As pessoas não sabem como é que é o formal. Isso já exclui as pessoas também. Ela vai falar com o reitor da universidade do mesmo jeito que ela fala com o colega da esquina. Ai já está discriminando, porque o mundo é todo feito de diferenciações. “Ele foi o primeiro na corrida”, “ele é o melhor médico”, o mundo tem essas coisas. Se você não forma as pessoas pra saber que tem diferenciações, ela fica excluída também. Acho que é um monte de coisas que tá meio deletéria hoje. Mas isso são tendências. Não é totalmente sem saída.
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A matéria foi produzida pelos repórteres Flávio Aquistapace e Priscila Cardoso dos Santos.
Fonte: http://guiadeempregos.aprendiz.uol.com.br/2011/12/22/%E2%80%9Ca-cultura-da-velocidade-e-das-revolucoes-tecnologicas-destruiu-as-humanidades-e-concorre-para-o-fim-do-laco-social-como-a-gente-conheceu-ate-agora-%E2%80%9D/
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